Toca do JENS


Em busca do ouro

 

Hoje não tem torta de maçã. Meu nome é trabalho.



Escrito por Jens às 22h32
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O repouso do guerreiro

- Parabéns, senador.

Modesto, o congressista esboçou um sorriso e agradeceu gesticulando levemente a cabeça branca com pronunciados sinais de calvície.

Sua foto estava nas primeiras páginas de todos os jornais do estado. No dia anterior, pronunciara um brilhante discurso no Congresso, ao fim do qual prometera cortar os pulsos, caso não fosse aprovado um empréstimo para sua terra natal. A intrepidez foi recompensada. O governo federal, assustado com a tragédia iminente, sancionou o pedido. Davi venceu Golias mais uma vez.

O senador, conhecido por seus hábitos franciscanos, sorveu um gole do Buchanan’s 12 anos e chupou a ponta babada do Cohiba, também apelidado de “Embaixador Extraordinário de Cuba”. Apesar de comunistas, os cubanos sabiam fazer charutos. Melhor ainda nos tempos do ditador Fulgêncio Batista quando, reza a lenda, as folhas de tabaco eram enroladas nas coxas de jovens virgens. “Bons tempos”, pensou o vetusto parlamentar, aspirando o aroma do objeto do seu prazer.

- Sou apenas um soldado do meu grande e valoroso estado. Um servo leal do meu povo. Um homem simples – disse enfático. Quando falava o senador cuspia, o que lhe valeu o alcunha, por parte dos adversários políticos, de Perdigoto dos Pampas.

Madame Jeany Mary sorriu. Já conhecia o discurso. Discretamente, limpou o rosto com um lenço rendado.

- Um servo bem muito bem pago – observou ela, sabendo que os hábitos simples do senador eram dispendiosos.

O líder político não se abalou com a ironia.

- É natural que um bom soldado seja bem remunerado. Sempre defendi que cada homem deve ser pago de acordo com a relevância dos serviços prestados.

Madame concordou.

- É justo. Justíssimo. De quanto é a comissão?

O senador alisou o bigode fino.

- O usual, 10%. Bem, vamos aos negócios. A Gioconda está livre?

Madame Jeany Mary pressentiu generosidade no tom de voz do prócer combativo, influente e, nos momentos de lazer, um abnegado discípulo de Sacher-Masoch.  Esfregou as mãos como se estivesse com frio.

- Para o senhor, sempre, ilustre amigo. Catarina e Antonieta também. Sei que são as suas preferidas.

Foi a vez do senador esfregar as mãos.

- Ótimo, ótimo. Gio, Cati e Toni... Adoro estas meninas. Quero todas. Vestidas de prenda e empunhando rebenques.  Depois do combate de ontem, preciso espairecer – declarou, antes de engolir uma pílula azul.

- Justo. Justíssimo. O repouso do guerreiro – concordou Madame Jeany Mary, novamente levando o lenço rendado ao rosto.

O bravo combatente das forças da moralidade era antes de tudo um forte.

***

Beijos, gurias. Abraços, piás.

Pra cima com a viga. Boa semana para todos nós.

***

Minhas preces foram ouvidas. Acabaram-se os problemas hidráulicos no castelo. A restauração do banheiro começa hoje.

Escrito por Jens às 22h45
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Guerra

 

Com uma das mãos no bolso e a outra segurando o queixo, avaliou a situação e sentenciou:

- Tem que quebrar.

Gemi mentalmente. Não queria parecer uma mulherzinha na frente daquele homem rústico, espadaúdo, com os cabelos cor de fogo (“Ops, que é isso? Controle suas emoções. Você tem uma imagem a zelar” comentário de Bob, o botão da calça Levi’s, minha consciência crítica).

Alertado por meu fiel companheiro, engrossei a voz.

- Porra, putaquiupariu.

Ele concordou.

- É uma merda. Mas não tem jeito.

Ordenei.

- Então, toca ficha.

Assim começou a depredação do meu banheiro.

***

Dois dias atrás quem estava com uma mão no bolso e outra segurando o queixo era eu. No apartamento da vizinha do 104 encarava a cachoeira que jorrava do teto do banheiro.

Os olhos verdes súplices de Graça, a vizinha, pediam solução. Com a voz terna, pensei em envolvê-la em meus braços à guisa de consolo (pensando na pílula azul que carrego no bolso). No entanto, apenas falei, ternamente:

- Não se preocupe. Vou resolver.

***

A solução era o Foguinho, encanador, marceneiro, pedreiro, fornecedor de CD’s, chofer eventual. Além de faz-tudo, é dono de um bric que vende móveis e aparelhos eletro-eletrônicos usados (alguns nem tanto). Quer uma tevê de plasma? No outro dia ele aparece com o aparelho. Um computador? A mesma coisa. Só não é permitido perguntar a procedência. Muito menos exigir nota fiscal. Pois era este profissional de muitas qualidades quem destruía as paredes do banheiro à marteladas, procurando um maldito cano furado.

***

Desolado, eu contemplava a catástrofe gerada por aquela guerra sem quartel. A pia, o armário e o espelho fulminados num canto. A parede exibindo uma nudez esburacada e pornográfica. O entulho, triunfante, espalhado pelo chão. O Foguinho, o rosto ainda mais vermelho pelo esforço, informava que a destruição fora inútil.

- Não é aqui. É no apartamento de cima.

***

Em comitiva fomos ao 304 – Graça, Célia (a síndica) e eu. Sandra, a vizinha de cima, se fez de tonta.

- Aqui está tudo bem.

Escoltada gentilmente por minhas amigas recém conquistadas, foi conduzida até o meu apartamento e ao da Graça. Horrorizou-se.

- Ó que judiaria.

Graça, de ascendência judaica, exigiu respeito.

- Ó que coisa lamentável, corrigiu-se Sandra.

- É aí?, cobrou Célia com firmeza.

- Pois é, né...

- Pois é, não. Tem que fazer alguma coisa. E já!, exigiu a combativa e fofinha Graca.

“É isto aí! Porrada nela” apoiei mentalmente, escondido atrás das mulheres e já excitado com a possibilidade de uma cena de pugilato feminino.

Pressentindo que resistir resultaria em desforço físico, Sandra aquiesceu em providenciar o conserto do seu banheiro (ou repassar para o morador do 404, caso o cano furado não esteja ali).

***

Isto foi na quarta-feira passada. Somente hoje, sexta, ouvi as providências. Enquanto escrevo, martelam as paredes do seu apartamento.

O diabinho que mora em mim sorri – “bem feito”.

Meu banheiro continua alagado. Já perdi uma toalha, transformada em pano de chão. Vou cobrar da Sandra.

***

Beijos molhados, garotas. Abraços enxutos, rapazes.

Bom findi para todos nós. De preferência, seco.

Escrito por Jens às 11h07
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Jornada heróica

O telefone tocou pouco antes das onze da matina. Pensei em não atender. Afinal, era sexta-feira 13 e sou um tanto quanto... her....supersticioso. Acredito em tudo que é sobrenatural, inclusive no nefando Mão Pelada com que a mana Rosa atormentou minha infância querida que os anos não trazem mais. Um dia conto o episódio verídico em que meu avô Daniel enfrentou um lobisomem a facão. Todos os dias, antes de deitar, inspeciono debaixo da cama, a procura de seres do outro mundo ou de comunistas. Ainda não encontrei nenhum.

***

Bom, voltando ao chamado telefônico. Resolvi atender. Os deuses, caprichosos, poderiam estar oferecendo uma dádiva. Melhor não arriscar.

Era meu associado Moah, eufórico.

- Hoje começa a temporada do mocotó no Mercado, vamos nessa?

Opa, como fui esquecer do evento? A temporada do mocotó é um dos mais importantes acontecimentos da cidade, principalmente para os amantes do colesterol e de um bom vinho. Concordei incontinenti.

- Uêba, tô dentro.

***

No Mercado Público, circulamos pelos botecos lotados de glutões em busca do celebrado manjar. Como homens de bom gosto e elevado poder aquisitivo optamos pelo centenário Bar Naval. Um cartaz na entrada anunciava: “Hoje, violento mocotó”. Senti um ruído no ventre. Era meu aparelho digestivo, choramingando.

- Piedade, mestre, piedade...

Honrando a tradição bagual, fiz ouvidos de mercador e fui em frente.

Uma terrina do “violento mocotó” do Naval é suficiente para alimentar duas pessoas normais. Não é o nosso caso. Pedimos uma para cada um, acompanhada de um pote de pimenta especial. E vinho tinto. Seco para o Moah, suave para mim (uma concessão às reivindicações estomacais). Enchemos o pandulho. A gororoba estava divina.

1 hora depois, lutando para manter os lábios descolados (mocotó violento é aquele deixa a boca grudada) fomos ao Largo Glênio Peres desfrutar dos benefícios do sol de outono. O Moah comprou dois charutos, que degustamos enquanto admirávamos embevecidos o desfile das deusas.

Meu associado, saudoso, indagou:

- Será que ainda voltaremos a desfrutar impunemente das delícias dos prazeres extremos que só encontramos nos braços de uma deusa?

Igualmente encantado, respondi otimista:

- Certamente, certamente... Baco e Afrodite não nos abandonarão.

- Amém, retrucou meu companheiro.

Voltamos ao Naval. Negociamos com Sem Braço, o contrabandista do pedaço, duas pílulas azuis made in Paraguai, a fim de estarmos preparados para qualquer possibilidade de uma aventura romântica.

Pedimos mais vinho ao Paulo Naval.

Pensamos em discutir a pauta da próxima edição do jornal. Pensamos apenas, pois o apelo das deusas foi mais forte. Assim, fizemos o que os homens mais gostam de fazer: conversamos sobre mulher e futebol. A happy hour começou mais cedo.

A noite foi um suplício povoado por horríveis pesadelos, interrompidos por um torturante e renitente desarranjo intestinal.

Violento e maldito mocotó.

***

Ah sim, ainda não usamos as pílulas azuis.

***

Junto com meu associado Moah, depois da jornada etílico-gastronômica.

***

Quebra-quebra no castelo - Vazamento no banheiro que está atingindo também a vizinha do andar abaixo do meu, a simpática Graça (hummm...). Depois do quebra-quebra promovido pelo Foguinho (Little fire man, como o chama a Mariana Timm), descobrimos que o problema é no banheiro da vizinha de cima, a Sandra. A síndica, a Célia, veio, viu e disse que vai tomar providências. Confusão no castelo. Entulho, paredes abertas e pinga-pinga. Estou nervoso, perdido no meio da mulherada.

Acho que vou fazer uma revolução.

***

Beijos, Deusas. Abraços, Capetas.



Escrito por Jens às 16h06
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O rei da estrada

 

 - É fácil, presta atenção. Primeira, segunda, terceira, quarta e ré. Quando for mudar a marcha, aperta este pedal. Para acelerar é este aqui, este outro é pra parar. Sacou? É barbada.

Assim foi a minha primeira é única lição sobre como dirigir um carro, um fusca, para ser mais específico. O professor foi o Luiz, um amigo. Na verdade, ele era mais amigo do meu melhor amigo, o Roberto, que estava junto. Eu tinha 16 anos. Eles, dois anos mais velhos. Estávamos em uma zona deserta de gente e casas, próximo onde eu morava (hoje é o local que abriga as residências mais elegantes de Ipanema). Troquei de lugar com o Luiz, testei meu recém adquirido conhecimento sobre mudança de marchas. Ok. Luiz Ligou o carro e disse:

- Vai.

Nervoso, fui. É lógico que aquela irresponsabilidade não poderia dar certo. Perdi o controle dos movimentos. Pisei fundo no acelerador. O fusca disparou como um foguete.

Eles berravam:

- Pára, pára, pára!

Eu tentei, mas não consegui. Em pânico, pressionava os pedais do freio e do acelerador ao mesmo tempo. O carro ziguezagueava. Um solavanco, subimos o cordão da calçada. Outro solavanco, descemos o cordão da calçada. Uma árvore se aproximava perigosamente. Gritos, uivos...

- Puta merda, vamos morrer!

Por fim, um aliviado e coletivo ufa!

Paramos.

Descemos e fomos verificar o estrago. Sulcos na grama mostravam a trajetória irregular que percorremos depois que o carro saiu do leito da rua. Marcas fundas ao lado de uma árvore centenária eram a prova de que escapamos por um triz de sofrer um grave acidente. Além do susto, danos apenas no fusca.

A brincadeira me custou 28 cruzeiros, o preço de um jogo de pneus e do trabalho do mecânico. Um rombo no orçamento (eu ganhava 120 paus, salário mínimo de menor). O pai e a mãe nunca souberam.

Esta foi a minha primeira e única tentativa de aprender a dirigir. Nunca mais sentei atrás do volante de um automóvel.

Os amigos não ficaram zangados, continuamos nos dando bem até que a vida nos separou. O Luiz foi pra São Paulo, tornou-se comissário de bordo da Varig. O Roberto, que queria ser médico, começou a trabalhar, foi morar sozinho em um apartamento no Centro, apaixonou-se por duas mulheres bem mais velhas (não ao mesmo tempo), foi traído, abandonado, procurou consolo no ocultismo, bebeu chá feito de uma planta chamada Dama da Noite, perdeu o tino e nunca mais o achou. Aos 28 anos encostou-se na Previdência Social (primeiro INPS, depois Inamps e hoje sei lá o quê). Aos 35 aposentou-se. Nunca recobrou a vontade de viver. Até hoje depende de remédios tarja preta. Depois da doença ainda convivi com ele por algum tempo – encontros cada vez mais raros até que cessaram por completo. Eu tinha, ainda tenho, viço de viver e precisava seguir em frente. O Roberto era um rapaz dedicado e interessado em Medicina. Quando as luzes se apagaram, trabalhava em um laboratório de análises clínicas. Acho que o Brasil perdeu um bom médico. Pena.

Mas eu não me perdi. Continuo mandando bala pra baixo contra as falanges do mal.

Arriba!

***

Beijos, lindas. Abraços, camaradas.

Boa semana para todos nós.

***

Mural

* Um beijo pra Mariana Timm - a morena mais frajola do Brasil, a dona dos meus melhores sentimentos. Te amo, Preta.

* Um sinal amarelo pro Dunga. Qualé, camarada? Te liga, o pessoal da Cohab tá na tua cola!

* Um alerta vermelho para meu associado Moah: na próxima quarta-feira toda a verdade sobre o “violento mocotó” a que fui submetido na última sexta-feira 13. Meu aparelho digestivo exige um pedido de desculpa público.

* Um esclarecimento aos navegantes: ainda estou invicto este ano, sexualmente falando. Mas sou bagual. Dos bons.

* Outro esclarecimento: muito frio por aqui. Nesta segunda, temperatura de dois graus, de acordo com os magos da meteorologia. Amanhã, zero grau. Banho, com este tempo, só louco. Sou guasca, mas não sou doido. Ainda.

* Tchau, Jamelão (“Mangueira, onde estão teus tamborins? Viver somente do cartaz não chega. Põe as pastoras na avenida”).

* Eu sou é macho (acho).

* Fui!

Escrito por Jens às 23h32
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Nos braços da paz

- E aí, seu porra, sumiu?

O Caloca, intelectual orgânico eternamente desempregado, levanta e me abraça. Trocamos tapaços nas costas. Coisa de guasca. O Jorjão, contumaz barranqueador de éguas, repete o gesto. Sorrimos todos.

Peço o de sempre. Um JD puro. O velho combatente do Tennessee me aquece a alma.

- O que houve? Crise no castelo?

Acendo um cigarro e confirmo.

- O Sansão ficou dodói.

O Jorjão dá um talagaço na barrouda.

- Porra, ataque de bicha é foda. Acaba com a gente.

 “Ataque de bicha” é como meu rude e leal amigo, criado nas barrancas do Rio Uruguai, se refere às dores emocionais que vez por outra fazem pousada em espíritos sensíveis como o meu. Não tenho a mínima idéia de qual a relação entre lombrigas (aqui também conhecidas por “bichas”) e eventuais solavancos psicológicos.

- Quanto tempo fora do mundo?

- 1 semana. Portas e janelas trancadas. Comida de menos, cigarros demais. Vontade de ir morar no infinito. Banho, nem pensar.

O Caloca pega um Hollywood do maço sobre a mesa.

- Porra, sei como é isto. Todos nós sabemos. Os demoniozinhos fazendo festa na nossa cabeça. É um inferno.

- A solidão é uma merda. Vocês precisam de mulher, filosofa o Jorjão.

O intelectual faz uma observação gaiata.

- Ué, por que não um homem? Ou uma potranca?

 Jorjão ri, lembrando da sua amásia, a tordilha Mansinha.

- Eu não me queixo. Vivo muito bem. Mas então, seu Jens, passou?

- Passou.

- Ótimo, vamos comemorar, diz o Caloca antes de pedir mais uma rodada.

- Também estou nessa.

É Marisinha, recém chegada. De pé, me acolhe nos braços. Faz um carinho e, olhos fixos nos meus, pergunta se está tudo bem. Diante do olhar luminoso como algo poderia estar errado? O mundo é bom e Deus existe. Estou com meus amigos. Nos braços da paz.

O homem que eu era voltou.

***

Beijos, garotas. Abraços, garotos.

Arriba!

***

PS: Valeu, Pirata!

Escrito por Jens às 15h43
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Mau tempo

 

 Desânimo sem razão aparente. Acontece. Volto quando passar.

 



Escrito por Jens às 12h47
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Guisadinho com farofa

Porra, trabalhei pra cacete no final de semana. Desde sexta-feira, eu e meu associado Moah mergulhamos no fechamento de mais uma edição do vibrante mensário Marca da Cal. Estávamos no prazo, mas mesmo assim o chefinho Carlos Simon não cessava de cobrar: “porra, c..., já era pro jornal estar na gráfica”.

Foi. Na segunda-feira à tarde.

***

Depois desta labuta, era previsível que eu estivesse física e mentalmente estuporado. Destarte, concedi-me uma folga na terça-feira. Não fiz absolutamente nada durante quase todo o dia. Só voltei à vida no final da tarde.

O trabalho enobrece, mas não exageremos.

***

Nestas dias, fiquei quase totalmente alheio ao noticiário em geral (exceção para os acontecimentos do mundo da bola). Acho que não perdi muita coisa. Terminou a novela das oito. Começou a novela das oito. Na CPI do Detran/RS, que apura a roubalheira do tucanato gaudério, ninguém sabe de nada, muito menos viu alguma coisa. Parece que descobriram mais um campo de petróleo (toda semana surge um).

Ou seja, nada mudou.

***

Hoje à tarde eu e minha doce e prestativa vizinha Odaléia vamos prospectar a área do estacionamento em busca do ouro negro. Quem sabe não moramos em cima de um manancial do precioso líquido?

É preciso ter fé.

***

Preciso fazer a barba, cortar o cabelo e tomar banho (se não estiver muito frio). Ah, também tenho que ir no BIG comprar mantimentos para a subsistência e, principalmente, reabastecer a adega.

O frio vem aí.

***

Hoje em dia não tem mais, mas na minha época de estudante existia a figura do repetente. Era o estudante que repetia o ano por não alcançar a média mínima exigida em determinada matéria. Eu tropecei na 3ª série ginasial. O culpado pela débâcle foi o sexo. Esta é uma história longa, excitante, recheada de passagens sensuais com professoras gostosas e estudantes imberbes com os hormônios em fúria. 

Conto na sexta-feira.

***

Se alguém descolar um ingresso pro show do Chuck Berry no dia 21 terá o meu eterno agradecimento. Se forem três, terá também o reconhecimento de Mariana Timm e Alexandre, seu Cavaleiro Andante.

Thanks.

***

É bom retornar ao dolce far niente.

***

Beijos, divinas damas. Abraços, garbosos mancebos.

***

Pra cima com a viga!



Escrito por Jens às 20h21
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A primeira namorada

Já escrevi sobre meu primeiro amor. Hoje vou falar da primeira namorada pra valer. O nome dela era Vera.

Quando a conheci eu tinha 20 anos.  Ela, 21. Ambos trabalhávamos no Banrisul e militávamos no Sindicato dos Bancários.

***

Abre parêntesis. Que maravilha era o mundo do trabalho naquele tempo pré-informático – os empregos eram abundantes. Só no andar térreo da agência Central, onde eu trabalhava, havia centenas de funcionários. Ao todo, o prédio abrigava milhares. Era um ambiente agitado, borbulhante de vida, alegria e sonhos (a maioria eram estudantes universitários, que alimentavam a esperança de alçar outros vôos. Alguns, como eu, bateram asas. Outros permaneceram. Outros, ainda e mais tarde, com menos sorte, sucumbiram aos planos de demissões voluntárias que vieram na esteira que trouxe a informatização. Fecha parêntesis.

***

Eu trabalhava no setor de Contas Correntes, no 1º andar. Vera, no subsolo.

Como disse, ambos freqüentávamos as reuniões no Sindicato. Na época, o presidente Olívio Dutra, também funcionário do banco, desenvolvia um trabalho intenso de mobilização e organização da categoria. Os encontros eram às quartas-feiras à noite e aos sábados pela manhã. Como eu estudava pela manhã (menos no sábado) era um freqüentador assíduo.

Aos poucos notei aquela garota baixinha com jeito traquinas, gostosinha, crespos cabelos pretos, lábios carnudos desafiadores, formas arredondadas, petulante nos gestos, no modo de caminhar e no olhar castanho que disparava faíscas peraltas.

No início ela não notou minha presença. Depois, quando passamos a conviver nas rodas de chope depois das reuniões e assembléias, ela ostensivamente não notava a minha presença – ou seja, eu havia despertado o seu interesse.

Já disse que ela era branca? Pois era. No entanto, em nenhum momento levei isto em consideração quando me dispus a seguir o que determinava o meu coração (sorry, momento telenovela).

O adolescente tímido, confuso e covarde que eu era quando se tratava de mulheres tinha ficado nas ruas e esquinas de Ipanema. Agora era outro, aqueles jovens também eram outros, os tempos eram outros – sopravam os ventos mudancistas (ave, dr. Ulysses) da liberdade. Queríamos sentir a vida sem os entraves dos velhos medos e preconceitos impostos por nossos pais.

***

A Vera morava em um apartamento com mais três amigas. Cursava Matemática. Descendente de turcos, era originária de uma cidadezinha do interior, assim como as colegas. Aliás, a esmagadora maioria do pessoal do banco era gente vinda do interior do Estado para estudar e trabalhar na capital. Hoje eles continuam vindo, só que engrossam os cinturões de miséria que florescem em torno da cidade. Os que não vêm estão por aí sem eira nem beira, vagando com os sem-terra.

***

O flerte custou a se transformar em namoro. Primeiro, ela teve de superar os seus próprios receios. Declarar-se isenta de preconceitos era uma coisa. Comprovar isto na prática, através de uma experiência pessoal, outra bem diferente. A realidade dói (acho que eu já disse isto). Mas ela venceu o desafio. Com louvor.

Um sábado, ao invés de ficarmos tomando chope e discutindo política e literatura, fui com ela e as amigas dançar em um barzinho com música ao vivo (logo eu, que nunca aprendi direito esta nobre arte). Por meio de um bilhetinho, pedi uma música – At Time goes by. Para minha agradável surpresa, fazia parte do repertório do conjunto. Pronto, a oportunidade aliou-se ao desejo.

No final da noite já éramos namorados, um namoro que só terminou três anos depois. Com um pouco de atraso, eu vivia finalmente as delícias torturantes dos amassos e dos beijos no portão (no caso, na porta de entrada do prédio onde ela morava). Ao contrário do que diz a música, em algumas ocasiões, um beijo é bem mais do que apenas um beijo; pode ser um mundo, ou melhor o limiar de um mundo de amor e paixão. Comigo foi assim.

A nossa primeira vez aconteceu seis meses depois e foi um desastre causado pela minha ansiedade, que consertei enviando um buquê de rosas, com os versos de uma música do Milton e do F. Brandt: “um fogo nasceu dentro de mim e eu não tive jeito de segurar/ preciso aprender os mistérios do fogo pra te incendiar”.

Aprendi. Ela também.

Mas sobre isto um cavalheiro deve se calar.

***

Vera morreu em 2006. Fiquei triste.

Ela me fez bem e eu a amei.

***

Beijos, damas. Abraços, cavalheiros.

Bom findi para todos nós.



Escrito por Jens às 23h45
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O início

Nasci em 30 de dezembro de 1955. Tenho uma irmã cinco anos mais velha. Depois de um início titubeante, quando muita gente achava que eu não chegaria ao quinto ano de vida, fui salvo pela competência prussiana do dr. Carlos Hoffmeister (que, anos depois, faria o mesmo por minha única filha Mariana). Sou, portanto, um sobrevivente. Segundo minha mãe era um guri bonitinho (que nem o da foto aí em cima). Menino, fui como os demais, feliz. Depois veio o mau destino e fez de mim o que quis (como aconteceu com Manuel Bandeira).

Joguei bola de meia, bola de couro, bola de gude; cacei passarinho a fundaços, pesquei em arroios, sangas e no Rio Guaíba, colecionei carteiras de cigarros vazias, tive álbuns de figurinhas, roubei frutas da chácara no fundo de casa, quase morri escalando morros e pedreiras de Ipanema.

Nunca briguei pra valer. Até hoje tenho horror à violência física, só brigo através da escrita. Covardia? Pode ser, mas as pelejas que assisti quando garoto, em que os caras perdiam completamente a razão, deixando-se dominar pela raiva, me assustaram muito. Nunca fiquei assim – “cego de ódio”. Nem quero, tenho medo do que possa acontecer.

Andei a cavalo uma única vez (o Tubiano, que pertencia ao meu avô. Que medo, que delícia), tomei muito banho de rio e aprendi a nadar sozinho, mas não aprendi a andar de bicicleta.

Aos sete anos entrei para o Grupo Escolar José de Anchieta (até hoje lembro o hino: “José de Anchieta/ meu grupo escolar/ para sempre te hei de lembrar/ pois tu és mais que minha escola/ és a continuação do meu lar...”), me apaixonei pela professora que me ensinou a ler e escrever (seria uma constante na minha vida estudantil esta paixão por professoras de Português).

A leitura e a escrita foram um marco na minha vida – antes e depois. Lia tudo o que me caia nas mãos, gibis que o pai comprava todo o fim de semana (Flecha Ligeira, Cavaleiro Negro, Batman, Superman, Gasparzinho, Bolinha e Luluzinha, Tio Patinhas, Pato Donald... que, depois eram trocados na sessão de negócios infantis antes das matinês domingueiras do Cine Ipanema), e também conheci As reinações de Narizinho, junto com Pedrinho, Emília e o Visconde de Sabugosa e as Aventuras de Tibicuera, do Érico. Aí nasceu meu amor de toda a vida – livros, livros a mancheia. 

Aos 12 anos terminei o primário, de onde sai carregando um diploma que até hoje ostento na parede com orgulho: “O Rotary Clubes de Porto Alegre confere o prêmio `Melhor Companheiro’ a Jens, consagrado pelo voto livre espontâneo de seus colegas do 5º ano AB do Grupo Escolar José de Anchieta desta capital, no ano letivo de 1967. 28 de outubro de 1967”. A cerimônia de entrega foi no Cine Roma, na Azenha. Junto ganhei um livro de Ciências. O pai me acompanhou. Acho que também estava orgulhoso.

Bem, cheguei então à adolescência. Problemas à vista.

Mas isto fica para uma outra hora.

***

Beijos, garotas. Abraços, garotos.

Escrito por Jens às 09h36
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Samba-canção

- Maria Odete!

Opa, o caso era grave. O Juraci nunca chamava a Maria Odete pelo nome de batismo. Normalmente era apenas Deti. Mãezinha somente aos domingos e quartas-feiras, quando queria alguma coisa – “Mãezinha, pega mais uma cervejinha pra comemorar o golaço do Fernandão. Tá três a zero pra nós. Aproveita e traz também uns petiscos”. Nestas ocasiões ela pensava, rumando à geladeira: “nós quem, cara-pálida? Eu sou gremista”. Nos raros momentos de romantismo, era Detinha; nos dois minutos de mais ardor, era AiDetinhaachoquevoumorrer.

Pressentindo a catástrofe, Deti entrou no quarto do casal, enxugando as mãos no avental.

- O que foi.

- Maria Odete, roubaram as minhas cuecas. Todas as três – falou o Juraci, recém saído do banho, o corpo redondo enrolado em uma toalha com o símbolo do Inter. O escudo do clube tapava o traseiro gordo do Juraci. Deti gostou da visão. Ali era o lugar dos vermelhos.

Ah, era isto. Ela até já tinha esquecido.

- Não roubaram não. Eu joguei fora.

- O QUÊ? Tu enlouqueceu, Maria Odete?

- Não. Aquelas cuecas estavam uma vergonha, Juraci. Puídas, remendadas e fora de moda. Joguei fora pra te obrigar a comprar outras.

Ela não suportava mais a visão do Juraci, aos domingos, esperando pelo jogo na tevê, circulando pela casa com aquelas malditas cuecas samba-canção (modelo antigo: brancas, abertas no meio, deixando exposta aquelas coisas moles, amorfas e oscilantes. Argh!).

- Porra, que merda. Onde estão, no lixo?

- Humhum.

- Isto não vai ficar assim.

Ele estava saindo do quarto, em busca da lata de lixo, quando ela esclareceu.

- Não adianta tentar resgatá-las. Eu cortei com a tesoura.

- NÃO! Você trucidou as minhas cuecas? Assassina!

- Deixa de frescura Juraci. Eram só umas cuecas velhas. Toma vergonha e compra outras.

O Juraci respirou fundo. Falou, pausadamente, contendo a fúria que o dominava.

- Eram muito mais do que isto, Maria Odete. Eram velhas amigas. Preciosas companheiras. Abrigavam o meu mais fiel amigo, o gigante de ébano.

Deti não resistiu.

- Gigante adormecido.

- Baixaria não, Maria Odete. Tenha respeito com quem já te deu tanto prazer.

Ela riu intimamente da ingenuidade dele, mas recuou. Suavizou a voz.

- É mesmo. Desculpa, more. Tu vai comprar outras cuecas?

More (de amore) era um sinal inequívoco de paz e uma promessa de carinhos noturnos. Mas o Juraci não se sensibilizou.

- Vou, Maria Odete, agora mesmo. Vou comprar três cuecas idênticas as que foram assassinadas. Vou vasculhar os brechós da cidade.

- Não se atreva, Juraci, não se atreva. Sou capaz de fazer uma loucura. Joguei fora as cuecas, mas fiquei com a tesoura.

Instintivamente o Juraci protegeu com as mãos as coisas moles, informes e oscilantes. No rosto, uma expressão de dor.

- Não seja boba, mulher. Deixa de histeria. Tenho que pensar no bem-estar do possante.

Possante aposentado, deitado eternamente em berço esplêndido, escarneceu a Deti, em pensamento.

- Não te atreva Juraci. Estás avisado.

***

Quando ele voltou faceiro, trazendo três cuecas em um saco de plástico, ela estava com as malas prontas.

- Estou indo pra casa da mamãe, avisou.

Na semana seguinte o Juraci recebeu um telefonema do Peçanha, advogado. Maria Odete queria o divórcio.

***

Não foi uma separação amigável.

***

Beijos, Detis. Abraços, Juracis.

Boa semana pra todos nós.

Pro alto e avante!



Escrito por Jens às 18h08
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Convalescente

 

Melhorei, mas ainda estou debilitado. Escrevo este texto deitado na cama. Gentilmente, meus camaradas Caloca, o intelectual eternamente desempregado, e Jorjão, o contumaz barranqueador de éguas, instalaram o velho Hal à beira do leito, de modo que pudesse escrever (se um dos amáveis leitores, condoído da situação, quiser presentear-me com um laptop, aceito de bom grado. Favor pagar o frete – meus recursos financeiros estão desidratados, pois estou gastando uma soma vultosa com a recuperação).

***

O Caloca trouxe uma infusão, tesouro familiar, que, diz ele, é tiro e queda para casos graves de traumatismos corporais. “Pede pra Marisinha fazer uma massagem”, disse o intelectual, antes de tomar um talagaço do remédio. “É também uma carícia para o fígado”, acrescentou. Pelo forte cheiro de álcool,  presumi que sim. Mas não me atrevi a testar.

***

Sempre atencioso, o Jorjão chegou com melado, torresmo e lembranças da Mansinha, a tordilha com quem divide a cocheira. “Ela mandou votos de pronto restabelecimento. Acho que está grávida”, exultou o humilde peão de estância. Dei-lhe os parabéns. Vem aí uma nova raça de centauros. Também ofereceu o excremento da amásia. “Dizem que emplastro de estrume de potranca grávida é um santo remédio para o teu problema”, esclareceu. Declinei a oferta. Não estou tão mal assim.

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Marisinha, musa eterna, secretária eventual e gostosa em tempo integral, também veio trazer solidariedade e oferecer seus préstimos. De acordo com a ocasião, estava vestida de enfermeira, porém, fiel ao seu estilo, o uniforme deixava à mostra boa parte do vale que divide os seios opulentos e, mais abaixo, as coxas roliças. Gemi, quando a vi. E não foi de dor. Mas ela pensou que sim e aninhou minha cabeça no peito e fez cafuné. Diante desta percepção do paraíso, só me ocorreu agradecer aos Céus: “Obrigado, Deus”. Quase atingi os píncaros da glória. Quase.

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Odaléia, a doce e prestativa vizinha, chegou aflita no final do dia. Quando soube, através do esposo Valdirão, o energúmeno, que eu estava enfermo, interrompeu a estadia na casa da irmã em Novo Hamburgo e rumou célere para a capital. Preocupada com a minha palidez, preparou uma lauta refeição (“Estás fraco”, sentenciou): bife, dois ovos, fritas, feijão, arroz, salada de tomate e alface. Pedi uma cervejinha para acompanhar, mas ela negou (“Estás dodói, não pode tomar nada de álcool”). Obediente, contentei-me com suco de laranja. Depois fez uma massagem restauradora com suas mãos delicadas, gordinhas e macias. Desta vez, atingi os píncaros da glória.

Mais tarde assistimos nosso filme preferido, Casablanca. Adormeci com a cabeça recostada no seu ombro macio.

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Estou quase bom. Sempre dependi da bondade das mulheres.

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Beijos, divinas damas. Abraços, reles mortais.

Bom findi.

Pra cima com a viga da paixão.

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(“ Viga da paixão? Putz, esta doeu! Perdoem, o escriba não está raciocinando bem. Excesso de Citrato de Orfenadrina + Dipirona Sodica + Cafeína no organismo”. Recado de Bob, a pernóstica consciência crítica do Jens).

Escrito por Jens às 22h45
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Corcunda

Desde terça-feira ando curvado, me arrastando pelas dependências do castelo. É a maldita coluna. Dói pra caramba. Fazia tempo não incomodava. Anos atrás, depois de um período dores atrozes, fiz um tratamento de massagens manuais e mecânicas (com um troço de metal que provocava cócegas), além de ficar com as costas expostas sob uma luz vermelha de boate. Aparentemente, o problema estava resolvido. Agora voltou.

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Apesar de ser um bagual dos bons, não convivo muito bem com a dor física. Assim, como sempre faço nestas ocasiões, recorri à ajuda feminina.

Primeiro, pensei em telefonar para a mãe e a mana em Floripa e transmitir o apelo sucinto e desesperado: “socorro!”

Porém, mesmo envolto em dor, consegui pensar no preço proibitivo das ligações DDD (como todos sabem, minhas finanças andam depauperadas), e optei por um auxílio local. Mandei um email para a herdeira Mariana Timm. Sabendo como ela é sensível, procurei não assustá-la e ocultei minha real condição. Escrevi simplesmente: “Pretinha: papai está mal. Acho que vou morrer”.

***

Como eu esperava, o telefone não demorou a tocar.

“O que houve?”, indagou Mari Timm apreensiva.

“Tô mal”, gemi. “Não consigo ficar reto. Estou corcunda. Ai, ui...”

“Ah, não é nada. É só a coluna. Toma um dorflex que passa. Já falei que tu tem que tirar o traseiro da cadeira de vez em quando e caminhar, fazer exercício. Sai da frente do computador, pô”, sugeriu com delicadeza.

Mal contendo as lágrimas, desabafei.

“Não posso, tenho que trabalhar. Não sei se é a coluna. É possível que seja algo mais grave, uma doença ainda não descoberta pela medicina. Talvez eu esteja involuindo. Amanhã posso estar andando de quatro. Depois, quem sabe, me balançando no alto das árvores como um macaco. O cérebro também não tá funcionando bem. Tô com medo. Ai, ui...”

“Não seja dramático, paizinho. Desatarracha a bunda da cadeira, vai até o boteco e compra uma cartela de analgésico”, aconselhou minha princesinha.

“Será que vai resolver?”, balbuciei.

“Claro que vai”, respondeu com firmeza.

“Vem me ver depois da aula?”. Não foi uma pergunta, mas uma tentativa de chantagem emocional. Não colou.

“Não. Vou a uma festa com o Alexandre. Tchau. Beijo”.

“Beijo, queridinha. Ai, ui...”

***

Filha ingrata. Mas segui seu conselho. Antes liguei para Odaléia, minha doce e prestativa vizinha. Não estava, quem atendeu foi o marido, o Valdirão.

“Odaléia tá viajando. Foi visitar a irmã em Novo Hamburgo. Não sei quando volta”, informou o energúmeno. Riu quando contei do meu infortúnio.

“Porra, dor na coluna é foda”, comentou o fdp antes de desligar às gargalhadas.

***

Arrastei-me até o armazém da esquina, balançando o chaveiro em uma das mãos, como se fosse um carcereiro de masmorras imundas. Na rua fui objeto de comentários jocosos.

“Olha ali, mãe! Por que aquele homem tá caminhando daquele jeito gozado?”.

“Não olha meu filho. É feio. Deve estar doente. Ou bêbado”.

“Porra, parece que ele vai cair de cara no chão. Acho que é louco. Posso atirar uma pedra?”, perguntou o moleque, já empunhando um cascalho de bom tamanho.

“Vanderkleison! Já falei pra não jogar pedras nos outros. Ainda mais em mendigos ou pessoas doentes. Vai ver o pobre homem nasceu assim. Me dá isto aqui!”, ralhou a genitora, recolhendo a pedra.

Tentando compensar a má-educação do pivete, a mulher me ofereceu uma moeda. Como era de 1 real, aceitei.

Quanto ao pirralho, aquele era o seu dia de sorte. Num esforço sobre-humano eu já havia catado um tijolo com o qual pretendia revidar um eventual ataque.

***

Já em casa, de imediato tomei três dorflex. A dor passou, mas o cérebro continuou operando à meia-boca.

***

Mas não é por esta razão que vou encerrar o post. É que acabou de chegar uma visita ilustre, diretamente da França.

É Quasímodo, meu companheiro de Notre Dame.

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Beijos, elegantes mocinhas. Abraços, garbosos mancebos.

Ai, ui, ai...

Arriba!



Escrito por Jens às 23h27
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O Fedor

No fim de semana li uma porrada de coisas bacanas na blogosfera. Gostei especialmente dos textos do Jota Effe Esse, da Loba, da Luma e do Roy – relatos recheados de ternura sobre suas cidades favoritas. Não foi por casualidade que escreveram sobre o mesmo tema. Eles participaram da blogagem coletiva  Coisas do Brasil, proposta pela Andréa Motta. Contaram aquelas particularidades das cidades que não despertam a atenção do turista de camisa colorida e máquina fotográfica em punho.

(Ah, também me diverti com a soneca da Reg no metrô).

***

“Porra que legal”, comentei com Bob, o botão da calça Levi’s.

Minha consciência crítica, sempre alerta, obtemperou: “ciúmes?”.

Como sempre ele estava certo. Sou um invejoso, especialmente quando se trata de textos bem escritos.

Choraminguei: “queria escrever assim, com esta sensibilidade. Mas sou um bronco forjado nas esquinas sombrias e enfumaçadas de Ipanema. Sempre que ouço falar em poesia levo a mão ao coldre. Li a Bíblia, mas não entendi”.

Bob ficou impaciente: “deixa de frescura, pára de nhénhénhém. O que diriam teus confrades de delinqüência juvenil se te vissem assim rezingando feito mulherzinha? Copia a Luma e fala sobre o Louco de Ipanema.”

“É, seu Isaque era completamente maluco. Ficava ainda mais doido quando a gente jogava pedra na casa dele, hehehe...”

“Esquece”, recomendou Bob. “Os leitores vão ficar chocados com as maldades que a tua gangue praticava. Escreve sobre o Fedor”.

“Porra, é mesmo, acho que toda cidade tem um Fedor”.

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É uma lancheria com alma de boteco no centro de Porto Alegre, na rua da Ladeira, em frente ao Sindicato dos Bancários, onde eu trabalhava na época – os combativos anos 80/90 – atacando com petardos verbais as falanges do capitalismo malsão. Todos os dias, depois do expediente, nos reuníamos ali. Fechava às 21 horas para os mortais comuns. Protegidos dos olhares da massa ignara, nós ficávamos lá, discutindo os rumos da humanidade sob a égide do socialismo, tão logo conquistássemos o poder, o que não deveria tardar. Por vezes o prefeito Olívio Dutra e seus assessores passavam na frente, percebiam o movimento, batiam, entravam e confraternizavam. Olívio não é do tipo que esquece os velhos companheiros.

***

Abre parêntesis. Aconselhado por Bob, esclareço que só pegava no batente (cinco horas por dia) às duas da tarde, o que permitia que as horas felizes adentrassem à noite. Esta foi uma das razões porque penei quatro anos na PUC. A outra foi o direito à prisão especial. Nunca se sabe quando vamos precisar deste privilégio... Fecha parêntesis.

***

O Fedor tinha uma particularidade que o diferenciava dos demais estabelecimentos do gênero. No banheiro havia um... ãh, como direi?... “artefato” de proporções robustas boiando permanentemente no vaso. Ninguém sabia quem o depositou ali, nem quando. Suspeita-se que tenha sido uma maldição deixada por um dos operários que construíram o local, descontente com a remuneração recebida. Seja como for, o ...ãh, hum... “artefato” resistia a todos os esforços do diligente João, um dos garçons, para eliminá-lo: soda cáustica, diabo verde, pimenta malagueta, cal virgem, pólvora... Por vezes parecia sumir, mas logo retornava triunfante, todo pimpão. Por fim o simpático dejeto conquistou nossa afeição. Ganhou até nome, dado por mim: Janjão. E o Fedor se chamava Fedor por causa do odor do Janjão, naturalmente.

Com o tempo, a turma se desfez e paulatinamente o Fedor foi abandonado. Outras lutas, outros bares... Ainda está na rua da Ladeira, resistindo à modernização do Centro da capital dos gaúchos. Mas não é mais o mesmo – ou talvez eu não seja mais o mesmo.

Nas raras ocasiões em passo por lá, apresso o passo e olho para o outro lado. Não sei se o Janjão ainda vive. Não tenho coragem de entrar para conferir. Saudade e fantasmas.

A saudade dói e de fantasmas eu tenho medo.

***

Beijos, belas. Abraços, feios. Boa semana pra todos nós.

Pro alto e avante.

Escrito por Jens às 14h56
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Classificados

Não sou homem de ficar passivo diante dos contratempos da existência. Assim, decidi ampliar os horizontes profissionais, a fim de vitaminar as finanças e colocar um ponto final nas reclamações dos credores todos os finais de mês. Além disso, a reação à fila de comerciantes impacientes que se forma na porta do castelo nestas ocasiões está ultrapassando rapidamente o território das maledicências sussurradas nos corredores e adentrando no perigoso terreno dos protestos explícitos e irados.

- Isto é uma pouca vergonha.

- Aposto que tem sacanagem no meio.

- As crianças estão assustadas. Esta porra tem que acabar.

Temendo o linchamento, não vi outra alternativa que não fosse diversificar as fontes de renda. Sendo mais claro: seguindo uma tendência cada vez mais em voga no país, guardei os escrúpulos no fundo da gaveta das cuecas e, com o denodo que caracteriza um bagual de boa cepa, fui à luta em busca de novos clientes. Se me pagarem, escrevo qualquer negócio.

Esta postura agressiva deu resultado. Aluguei minha pena para três pequenos audaciosos empreendedores, necessitados de uma igualmente audaz assessoria de imprensa e marketing para impulsionar seus negócios. A seguir, apresento-os ao distinto leitorado, que tem direito a 10% de desconto nos serviços oferecidos.

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Madame Veridiana – Recém chegada da Bahia, com estágio de aperfeiçoamento em São Paulo, onde foi monitorada pessoalmente por Madame Zora Yonara, Madame Veridiana possui dons extraordinários para acabar com olho grande e reatar casos de amor. Além de botar cartas e jogar búzios, desfaz trabalhos de magia negra, branca, azul, amarela, vermelha, verde e furta-cor. Traz a pessoa amada de volta em dois dias, arrastada pela orelha. Também atua na área da saúde, sendo comprovada sua competência em solucionar, entre outros, casos de lumbago, espinhela caída, mau-hálito, surdez, prisão de ventre, hemorróidas, impotência e frigidez. Atende de segunda a sábado, das 14 às 22 horas. Preços a combinar, de acordo com a magnitude do trabalho a ser realizado. Endereço: Rua da Arruda, número 7. Telefone (51) 1366-6666.

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Laras Drink’s Bar – Onde você encontra belas garotas com toda exuberância, beleza e sensualidade que só você merece. Às terças, Banho de Espuma; às quintas, Buffet Sexy; aos sábados, Piscina de Cerveja; às segundas, atendimento médico gratuito. Todas os dias uma festa diferente, com decoração, garotas variadas, animais quadrúpedes e anões besuntados em legítimo azeite de oliva extra-virgem. Em breve, Cabine Erótica. Local de excelente nível. O atendimento é feito pelos simpáticos proprietários Boca e sua consorte Zuleide de segunda a domingo, das 22 às 5 horas. Endereço: Rua B da Invasão da Aberta dos Morros, sem número. Telefone: (51) 6996-9669.