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BRASIL, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Inuktitut, vejo a vida com o velho Jack Daniel's




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Toca do JENS


  

Fim de caso

 Tentei, mas não foi possível continuar o caso com o BlogUOL. Incompatibilidade de gênios. Problemas em demasia, alguns aparentemente insolúveis. Assim sendo, mudei de morada. Agora estou aqui no Blogger (http://tocadojens.blogspot.com/) definitivamente. Nos vemos lá.



Escrito por Jens às 18h39
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Presente de Natal

 

Ele chegou de madrugada. Não sei como entrou, pois o meu castelo não tem chaminé e a porta de entrada tem fechadura dupla além de uma grade de ferro. Acordei com a sua presença obesa sentada ao lado da cama.

- Socorro, o Velho Tataia vai me pegar! - falei no que pretendia ser um grito de horror, mas soou um fiapo de voz assustada.

Levei um catipirapo na orelha.

- Deixa de frescura. Sou eu, seu porra.

Olhei com atenção e o reconheci. Só então me dei conta que os foguetes estourando e os pipocos variados, que ouvia antes de adormecer não eram a ação de traficantes em guerra. Eram cidadãos do bem e do mal que comemoravam a chegada dele.

- Putz, pensei que fosse o Velho do Saco. Estás mudado. Cadê a touca e as roupas vermelhas?

Vestia bermuda e camisa floreadas e ostentava uma calvície pronunciada. O grande saco vermelho ainda o acompanhava.

- Com este calor? Só se fosse louco - falou cofiando a barba branca, que continuava a mesma. - Na verdade, deixei esta vida de lado - acrescentou.

- As crianças ainda te esperam - observei.

- A maioria não acredita mais em mim. Mesmo assim, estarei presente em espírito e dublês. Terceirizei o serviço. Ou melhor, aluguei a grife para uma multinacional chinesa.

- Legal. Estás rico?, supunho.

- Dá pra viver. Mas ainda faço umas visitinhas para alguns clientes especiais, como tu.

- Oba, trouxe presente pra mim - exultei, pousando um olhar gordo no saco.

- Trouxe, mas não está aqui. Levanta, preguiçoso.

Segui-o até à minha sala/escritório. O PC estava ligado. A tela exibia a página desativada da Toca.

- Ué, também te liga na internet? - comentei surpreso.

- Uma coisinha ali outra ali. Gosto de ler as tuas bobagens. Aliás, gostava, quando escrevias.

- É, era legal. - disse saudoso.

- Bem, este é o meu presente.

Não entendi. Ele explicou.

- Vais voltar a escrever as tuas besteiras no blog. Tu quer, eu quero e alguns dos teus amigos também querem. Portanto, permita-se, presenteie-se com algo que vai te dar prazer. A melhor coisa desta época, na verdade de todas as épocas, é o convívio com os amigos.

- É, pensando bem...

- Não tem que pensar merda nenhuma. Vais voltar a escrever. Está decidido. Amanhã vou conferir. Se o blog não estiver atualizado, mando meu primo, o Velho Tataia, falar contigo. À noite.

Ao ouvir o nome do algoz que me assombra desde a infância, concordei.

- Ok, você venceu.

- Ótimo ele disse.

Abriu o saco e, a seguir, destampou uma caixa de isopor atulhada de gelo e latinhas de cerveja. Me deu uma e abriu outra. Tirou dois charutos do bolso da camisa. Acendemos.

- Por acaso não terias uma mulher inflável escondida aí? - perguntei esperançoso. É o meu desejo secreto desde longa data.

Ele riu.

- Não tens vergonha?

- Não. Perdi em 1979, na festa do Chico D. e da Bete P. Foi por esta época do ano.

- Lembro. Também estive lá. Disfarçado, é claro. Lembra da Mariazinha?

- Claro! Garota inesquecível.

Soltou uma baforada e disse.

- Se te comportares bem no próximo ano, talvez a Judite venha. (Judite é o nome da mulher de borracha dos meus sonhos).

Brindamos.

- Feliz Natal, seu porra.

- Feliz Natal. Valeu o presente, velho safado.

***

Assim, voltei.

Beijos e abraços natalinos.



Escrito por Jens às 18h08
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Happening e, no final, adeus 

Baita festa. Refiro-me, claro, a exposição inaugural da dona Beti Timm, que aconteceu no sábado passado na Casa de Artes Baka (favor atentar para o “refiro-me” – que linguagem elegante!).  O desenho acima até ontem não tinha nome. Agora tem; é o retrato de uma Deusa Mulher.  O padrinho sou eu.

Os bons rapazes disseram presente na hora da chamada (“aquela cambada”, diria o homem magro que foi meu pai. “Uma cambada do bem”, acrescentaria, contente.). Moah, Duca Aveline e Laurinha, a bela dama, estavam lá. O Urso mandou beijos, abraços e votos de boa sorte (o animal ainda está hibernando, ou seja, está sem carinho, sem mulher e devendo na praça). Cristina, estrela da manhã, da tarde e da noite, também estava lá, com o valente príncipe consorte and sons.

O pai, que não gostava de junção, desta vez deve ter dado o seu aval, lá do Céu onde se encontra.

Fui o primeiro a chegar. O segundo foi o Ivan, amigo e colega de PUC da Mari Timm, devidamente integrado à grei dos bons companheiros. É o mais novo membro do clube. A turma aprovou.

Contrariando o desejo do Edu, não fui pilchado (ou seja, fantasiado de gaúcho). mas estava bonitão. À tarde, cortei o cabelo e fiz a barba no Olavio (os nomes do populacho! Porque Olavio e não Olavo, menos estranho?), entornei duas skol, troquei algumas idéias com representantes da classe trabalhadora. Um deles tem um neto de 10 anos que é aficionado por comida – dois ovos e seis cassetinhos (pãezinhos, pra quem não é filho do sul) por dia, nos intervalos entre refeições mais consistentes. O moleque tem 10 anos e pesa 85 quilos. A família acha que gordura é sinônimo de saúde. Dei um bom conselho ao avô preocupado: “regime urgente à base de saladas, frutas e relhaços”.

Depois da primeira boa ação do dia (anotem, Deuses, não sou um canalha em tempo integral) retornei ao castelo e tomei um banho especial de meia hora (geralmente é de 15 minutos). Vesti a calça de sarja verde escuro, coloquei as meias brancas (tenho 11 pares), calcei o Olimpikus preto (o Pakalolo branco ficou chorando e denunciando um suposto racismo de minha parte), cobri meu torso esbelto com uma camisa xadrez azul e branca (depois de resistir à tentação da camiseta preta e do colete de couro marrom igual ao do John Wayne) e fui ser formidando para Bete e a Mari Timm.

Agora, relembrando minha performance, sinto vir água nos olhos. Não, não são de vergonha, seus maldosos. É de orgulho. Fui foda, Ou melhor, fodão. Deixei aflorar o melhor de mim, a gentileza (se alguém aventar a palavra cinismo vai levar uma porrada virtual), o charme natural e a inteligência brilhante.

Como disse, fui o primeiro. Ivan, o segundo. O terceiro e o quarto eram estranhos no ninho – um cidadão de idade avançada (no máximo cinco anos mais velho do que eu) e uma figura peculiar (bom nome para um boteco: Peculiar), o Peixoto, que além de apreciar os quadros em exposição, tomava notas. Desconfiei: são profissionais da boca-livre. Leram a agenda publicada Correio do Povo e vieram comer e beber de graça e, bônus, apreciar obras de arte. Bagual que sou, predispus-me ao ataque. (Reparem no conjunção verbal “predispus-me”. Estou escrevendo bem, hoje). Mari Timm, admoestou-me carinhosamente: “fica frio, pai”. Como sou obediente e também um garoto esperto e, sobretudo, otimista, vislumbrei no Peixoto um comprador em potencial. De olho no Natal (eu e a dona Bete somos separados, mas ainda parceiros nos momentos ruins e bon$), dediquei meus melhores salamaleques ao estranho. Foi um erro de avaliação. O cara é um bon vivant, mas duro e jornalista, como eu. Como se a desdita não bastasse, também é poeta. No final do forrobodó (“só faltou a dança”, diria o homem magro, antes de concluir, cético: “também, com uma junção destas, esperar o quê?”) o Peixoto declamou um poema  feito na hora, em homenagem à Bete Timm e sob a inspiração de seus desenhos. Cínico, creditei a gentileza como uma forma de pagamento ao vinho (Chalize) e aos petiscos – presunto, queijo e azeitonas – ofertados aos presentes. Aliás um registro para cobrança posterior: o resgate da arte foi caro. Espero que tenha sobrado algum para o meu presente de Natal e, cinco dias depois, de aniversário. Não tem este negócio de presente para as duas efemérides. Natal é Natal. Aniversário é aniversário. Presentes e presentes, conforme ensinaram o pai e a mãe.

Voltando ao resgate da arte. Finalmente conheci os pais do Cavaleiro Andante da Mari, o Alexandre. Adoráveis. Especialmente a mãe, durona, preocupada, amorosa e sensível. O pai é parecido comigo: “soltemo-los (os filhos), e eles vão se dar bem. Base não falta”. Lembrei do meu pai.

(Obs: “soltemo-los” foi foda. Atenção, ABL. Austregésilo de Athaide, intercedei por mim).

Terminando (pensaram que este troço não ia acabar?): foi bonita a festa. Fiquei contente, principalmente porque a Bete e a Mari ficaram contentes. Alguns de nós são assim; ficam felizes com a felicidade daqueles a quem querem bem.

Ah sim, não comi ninguém. De novo, dormi com dona Palmita de La Mano.

***

Preta, preta, pretinha.

Falando em felicidade: hoje, 1º de dezembro, é o aniversário da Mari Timm, a mulher que eu sempre vou amar. 27 anos atrás eu a vi nascer às 13h15m no Hospital Moinhos de Vento. Chorava e tinha cara de joelho. Incomodou pra caramba. E, na mesma medida, foi motivo de orgulho e satisfação. Foi e é. Amanhã, terça-feira, minha Rainha Preta vai estar em frente a uma banca universitária defendendo a sua Tese de Conclusão de Curso, a famigerada TCC (a propósito: Shi, sou eternamente grato. Valeu a ajuda, Você é uma lady, of course). O tema abordado pela Preta: Comparação das coberturas jornalísticas de Carta Capital e Veja na reeleição do presidente Lula.  Tá, tenho certa influência no processo (pô, é minha Preta). Combatendo as falanges do mal, vai passar com louvor, seguramente. Ela declinou delicadamente quando falei em recrutar alguns “armários”, ops, amigos, para acompanhar a sua explanação à banca, só pra mostrar com quem estão lidando. Jorjão, grande amigo, contumaz barranqueador de éguas, momentaneamente solteiro e belicoso, ficou desapontado: “pô, seu Jens, queria distribuir uns relhaços”. .Acalmei-o. Não faltará oportunidade. E a Pretilka vai passar. Nos pampas, poucos são os que não merecem uma surra de relho.

Mas voltando à Rainha Preta: será a segunda do clã a concluir a faculdade. Eu, o primeiro, nunca duvidei. O homem magro, il capi di tutti capi, também. Nesta terça-feira ele vai chorar de orgulho e felicidade, lá no Céu. Como eu, aqui na Terra.

Putaquiupariu, a Mariana é do caralho. Grande guria!

Beijo, Preta Timm. Você é a melhor filha que um homem poderia ter. Mesmo assim a gente briga de quando em vez. Faz parte. Te amo, mihafilha!

***

Boss, my boss.

No post abaixo, vaticinei que a vingança é doce. Retifico: não necessariamente. Ela pode ser salgada e quente. Como será hoje, segunda-feira, a partir das 8 horas da noite, quando os amigos do querido e amado Chefe Simon o estarão reunidos para um encontro de desagravo, em razão da tentativa de linchamento moral de que foi vítima na semana passada. Salada, churrasco, cerveja e arruda contra a maldade. A caravana passa e os cães ladram inutilmente.

***

Dilema: tenho que estar junto da Pretilka no dia do seu aniversário e véspera da sua maior vitória na vida, até aqui (outras virão!). Profissionalmente, não posso de deixar de comparecer ao jantar de desagravo do Chefe Simon. Como estar em dois lugares ao mesmo tempo? Valei-me, Deus Baco.

***

Pra quem fica tchau, ou melhor, inté a próxima.

Até não mais. A partir de hoje, não escrevo mais na blogosfera com exceção do Palimpnóia, de 15 em 15 dias. É uma penitência que eu mereço (ninguém sabe me punir como eu). Continuarei sendo um atento e constante visitante e, vez por outra, comentarista em vossas moradas. Doravante serei Le Passager de La Pluie. Dói, mas eu mereço a punição. Um dia eu volto. Talvez. Desculpem qualquer coisa.

***

Beijos encantados, deusas divinas e maravilhosas.

Abraços, bravos companheiros de viagem e vassalagem.

Estamos aí, pagando em suor e dor os momentos de felicidade.

Viver é bom. Mas, eventualmente, pode ser uma bosta.

Saco!

Pra cima com a viga, apesar de tudo.



Escrito por Jens às 13h34
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A virada

 

Perdoem, garotas, mas hoje o assunto é futebol.

Foi uma semana aziaga. Apesar do sol, nuvens de chumbo toldaram o horizonte da arbitragem gaúcha de futebol. Estou falando do imbróglio que desabou sobre o amado Chefe Simon no decorrer da semana que se encerra. Um pequeno resumo para quem não acompanha as candentes polêmicas do rude esporte bretão: no último domingo Carlos Simon não marcou um suposto pênalti a favor do Flamengo no jogo em que este perdeu para o Cruzeiro por 3 X 2, no Mineirão. O presidente do Flamengo, Kléber Leite, caiu de pau. Envolto em um manto de ódio, iniciou uma campanha pretendendo tirar Simon da lista de candidatos à arbitragem da Copa de 2010 na África do Sul. Uma bobagem logo rechaçada pela FIFA. O Flamengo pode muito, mas não pode tudo. Não na FIFA, pelo menos.

Na esteira do dirigente rubro-negro surfaram torcedores exaltados e, também, os chacais da mídia esportiva, todos clamando por sangue. Comentaristas de arbitragem renomados abandonaram o fairplay e ingressaram na temporada de caça ao Simon. Entende-se: se for escalado para a África do Sul, como tudo indica, ele será o único árbitro brasileiro a apitar três copas do mundo. Esta possibilidade incomoda algumas vacas sagradas do mundo do futebol. Para alguns o ciúme é um aditivo a ser ingerido diariamente antes do café da manhã. Daí o mau humor, pois como se sabe, a inveja, além de má conselheira, é uma merda.

Pois bem, na tarde de quinta-feira finalmente surgiu a verdade definitiva sobre o lance. Um vídeo na web (veja aqui) mostra que não aconteceu o pênalti. Uma câmera da lateral da ESPN revela que o atacante Diego Tardelli, do Flamengo, não foi tocado pelo defensor cruzeirense Leo Fortunato. Ele literalmente pisou na bola antes de se estatelar no chão sem nenhum auxílio. Ou seja, Simon esteve sempre certo; os chacais estavam errados.

E agora? Bem, para encerrar a celeuma com dignidade, o ideal seria que os verdugos de ontem fossem os penitentes de hoje, exaltando o acerto com a mesma estridência com que apontaram o erro inexistente. Mas isto seria esperar demais da natureza de certos homens. Tudo bem. Cada um no seu quadrado; cada um com a sua consciência.

***

Ah, outra boa notícia: o melhor árbitro do campeonato brasileiro é gaúcho. Os finalistas do prêmio Craque do Brasileirão  são Carlos Simon, Leandro Vuaden e Leonardo Gaciba. Sorry, periferia.

***

Passamos a semana nos defendendo e, aos 45 do segundo tempo, marcamos o gol da virada. Foi a volta do cipó de aroeira. Isto não tem preço (mas uma gratificaçãozinha no final do ano cai bem).

Nada como um dia depois do outro. A vingança é doce.

***

Resgate da Arte

 

Neste sábado, 29, começa a exposição Resgate da Arte, reunindo desenhos da Beti Timm. Segundo o marchand e crítico de arte Zeca Paes Guedes, a mãe da Mariana Timm “é uma artista genuína e original em suas criações intuitivas, impondo o fascínio de suas superfícies volumétricas e a sensualidade onírica de suas mulheres. Sua linguagem é lírica e os climas de suas obras, fascinantes.”

Quem estiver na aldeia está convocado para dar uma chegada casa de Artes Baka, na rua de República, 189, na Cidade Baixa, a partir das 19 horas. Além de arte, vai ter petiscos e um vinho amigo. E, claro, um papo inteligente e agradável (sim, sim, eu estarei lá).

Quem puder, apareça. Quem não puder, confira o talento de Beti Timm clicando aqui.

O desenho acima é de autoria dela. Trata-se de um delírio da imaginação, pois eu não uso traje de gaúcho e aquele braço na cintura não faz parte dos meus trejeitos. Coisas de artista.

***

Beijos, gurias. Abraços, guris.

Bom findi. Arriba!



Escrito por Jens às 13h30
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Golpe de mestre

 

O Pirralho caiu de costas, levantando poeira vermelha. Viu uma nesga de céu azul antes de cruzar os braços e proteger o rosto contra uma previsível saraivada de socos.

Porém o outro, o Gigante, negaceou, desferiu um pontapé tímido, abaixou-se duas ou três vezes para dar um murro buscando atingir a cara negra do magrelo. Mas era evidente que o grandão queria lutar de pé. Talvez para preservar o que ainda fosse possível da integridade da calça azul marinho do colégio.

Ágil, o Pirralho se ergueu. Encarou a raiva nos olhos congestionados do outro. Sentiu o cheiro de medo e valentia, odor ancestral de selvagens em luta. Viu o torso sujo e brilhante de suor do inimigo. Sentiu nojo, mas percebeu que não estava com melhor aparência. Herança da queda recente, uma fina camada de poeira grudara-se na sua pele magra e escura de mulato. Por sorte, considerou, não estava com a camisa branca do uniforme.

O Gigante queria acabar logo com aquilo. Era mais forte e mais velho e deveria vencer. Ou melhor, tinha que vencer. Em nome da honra.

Duas horas antes, no recreio, deu um empurrão no piá, que obstruía sua visão do jogo de handbol das gostosas. Disse simplesmente.

- Sai da frente, filho da puta.

Nada demais. Mas o porrinha insolente queria confusão.

- Te pego na saída.

O Gigante era uma massa de 80 quilos de energia e pouca luz. Brigava bem. Achou que era brincadeira do Pirralho, um novato desconhecido recém no segundo ano do ginásio. O Gigante estava no segundo do científico e era um dos príncipes dos esportes e da valentia no colégio Padre Reus.

O Pirralho estava falando sério. Segundo o página 631 do volume 7, da Barsa (que já foi a enciclopédia mais completa planeta), ele era um dos favoritos de Oxalá, Oxum e Iemanjá, além de protegido de Exu e filho adotivo de Xangô. O moleque era rebento das matas. Não estava para brincadeira. Ansiava ser príncipe entre os homens (depois, Rei, talvez...). Queria o lugar do Gigante. Mas não de graça. Queria ganhar na rua, na praça, na mão. O bostinha queria briga. Flipper, o golfinho contra Orca, a baleia assassina. O cara grande riu.

***

A luta.

Em meia hora teve de tudo: socos, pontapés, agarrões, cuspidas, mordidas e cabeçadas. O pivete quase arrancou um naco braço do Gigante, que quase quebrou o nariz do guri com uma cabeçada.

Estavam cansados, machucados e deformados. O Pirralho estava com o olho esquerdo fechado pelo inchaço, o nariz e o lado direito da boca, também fora da dimensão normal, sangrando. O Gigante tinha o lábio inferior rasgado, um olho inchado e um corte no supercílio direito. As mãos estavam em pandarecos. Preparavam-se para a investida final.

O Gigante cerrou os punhos e mordeu os lábios fazendo o sangue escorrer.

***

A luz.

O Pirralho estava surpreso. No íntimo, não pensou que fosse agüentar tanto. Era magro, lutador e corajoso como um dos grandes, mas o Gigante era maior, mais forte e tinha boa pontaria. A dor não o incomodava, ainda. Sua preocupação imediata era com a derrota iminente. Não tinha força para resistir ao próximo ataque. Era o fim. “Perco mas não desmaio”, decidiu. Foi então que, mil vezes mais rápida que a faísca de um relâmpago, uma luz verde acendeu na sua cabeça e ele soube como vencer a batalha. Sorriu agradecido à presença dos Deuses da Mata.

Frente a frente, curvados, as pernas abertas, levemente arqueadas, fitavam-se com raiva e desejo de aniquilação mútua, quando de repente o piá transformou o pé direito em moirão e fez dele um aríete esmagador que transportou o Gigante para um universo de dor até então desconhecido. Colocou a mão entre as pernas e soltou um urro contido, rouco, profundo e assustado como o de um animal ao ser ferido de morte. Certeira, a ponta do Vulcabrás do Pirralho acertou no meio do saco do Gigante. O som seco, um sonoro e chapado ploft!, indicou à plateia que o combate estava encerrado. Ninguém poderia se levantar depois de um golpe daqueles. Um golpe de mestre. Todos tinham certeza, que fora uma luta épica, destinada a entrar para a história não oficial da escola. Um combate de titãs. Por isto, o bando fez quase 30 segundos de silêncio antes dar início às celebrações e comentários sobre o embate que haviam testemunhado.

- Porra, pegou em cheio no saco. Acho que aleijou.

- Pô, ouviu o urro? PQP!

- Bah, te lembra daquela porrada no olho?

- E aquela outra...

***

Coda.

Uma mão invisível imprimiu traços de espanto e agonia na cara do Gigante, enquanto, com a boca aberta num grito silencioso, ele caiu de joelhos antes de tombar de lado no chão da praça, inapelavelmente rendido, enroscado no próprio corpo, talvez saudoso do tempo de estadia no útero quente, quieto e seguro da mãe. As mãos tentavam inutilmente aliviar o suplício que fustigava o centro do corpo, mas só realçavam a sua fragilidade triste. A boca por fim encontrou ar para gritar o tamanho da dor e da humilhação. Depois do berro, veio o uivo e logo a seguir soluços e gemidos. Consolado por dois fiéis cavaleiros, o Gigante ouviu e imaginou, a poucos passos dali, a consagração do Pirralho nos braços da malta.

- Os hunos têm um novo príncipe - mumurou para incomprensão da reduzida assistência

Lembrou de uma revista em quadrinhos que lia quando ainda era moleque: Príncipe Valente. Fez uma careta tentando, sem sucesso, substituir a dor por um sorriso prenhe de ironia. Não conseguiu. Fechou os olhos e deixou-se desmaiar, enfim.

***

Beijos recheados de testosterona, gurias.

A gente se encontra na saída, pirralhos.



Escrito por Jens às 01h06
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Los três amigos – O Urso (1)

 

Foi no sábado retrasado, dia da Proclamação da República. O nome do evento era pomposo: Encontro do Clube dos Bons Rapazes. Anualmente a gente se reúne no final do ano para avaliar eventuais estragos existenciais, físicos e financeiros. No segundo quesito estamos bem (se alguém disser que é porque estamos conservados em álcool, vai levar um pau). Local: Cia. da Picanha, um restaurante tranqüilo e familiar na confluência da Lima e Silva com a André da Rocha – um point elegante e tranqüilo na fashion Cidade Baixa, adequado a cidadãos de ascendência nobre, como nós. Horário: 13 horas. Participantes, os remanescentes da confraria: o multimídia, mestre na produção de sons e imagens, o irrequieto Duca; o mago das artes na edição do jornalismo impresso e eletrônico, meu associado Moah; o sábio, exemplo para as gerações mais novas, Urso, editor da vibrante seção internacional de um grande diário da capital dos gaúchos. Por fim, eu, Jens, o bruxo dos teclados, o feiticeiro que desvendou o tempero secreto da sopa de letrinhas, o amado mestre, o líder inconteste e inspiração de todos. No total cerca de 200 anos de vida, experiência e esbórnia, mais da metade com tinta de impressão correndo nas veias. A Laurinha, a bela dama, queria participar. Não deu. A celebração era dos machos.

***

Fiz a besteira de chegar na hora marcada. Não tinha ninguém, é claro, e as mesas da rua estavam ocupadas. Fui para um boteco do lado, reduto de aposentados e pensionistas. Pedi uma cerveja e esperei.

Uma hora depois avistei o Duca: tênis preto, sem meias, bermuda preta, camiseta preta e óculos pretos. Cumprimentos habituais:

- E aí, seu filho da puta?

- Como vai, seu corno?

Tudo bem, como sempre.

Pediu mais uma Skol. Logo depois chegou o Moah: na cabeça, bandana preta com estrelinhas brancas, óculos, casaco, camisa de mangas longas, calças e tênis pretos. As meias eram brancas. Fazia um calor de 27° graus. Concluí que não havia ido em casa desde a noite anterior. Torci para que estivesse com uma Deusa. Afinal, alguém precisa ter sorte.

- E aí, seus porras?

- Tudo bem, seu viado?

Tudo em ordem. Pagamos e fomos à Cia. da Picanha.

***

Fizemos o pedido inicial (Skol e Jack Daniel´s caubói – “tá pensando que alguém aqui é fresco?”, disse o Duca ao garçom, recusando o gelo. “Quem gosta de água é peixe. E capricha no choro. Tudo é muito caro aqui. Um roubo”. O Duca é assim, invocado).

Começamos a cumprir a pauta.

***

O Urso.

- Falei com ele pelo bate papo do gmail. Disse que vinha – informou o Moah.

- Não vem nada – afirmou o Duca - Desde março só sai de casa de noite, para ir ao jornal. Não atende telefone e não responde emails.

- Normal. Fugindo dos credores – falei.

Ninguém discordou. Uma vez ou outra todos lançamos mão do despiste para postergar o pagamento de dívidas – eu gosto de fingir que sou a empregada gostosa do castelo. Digo, sensual: “seu Jens foi viajar sem data para voltar”. O Moah é mais tradicional: “número errado, não sei de quem se trata”. O Duca é radical. Certa vez desafiou: “vem me cobrar aqui que te encho de porrada. Não mandei me darem crédito. Vão se queixar com o Malan” (foi no tempo do governo FHC).

O Urso é diferente. Trata-se de um cidadão responsável, integrado à sociedade, figura proeminente nos círculos intelectuais. O inferno, para ele, chama-se SPC/Serasa. Segundo o Moah, ganha bem (“uma baita bufunfa”), tem conta em vários bancos, uma penca de cartões de crédito e poderia levar uma vida de nababo, na sua ampla cobertura no centro de POA. Mas é um apaixonado contumaz. Quando a paixão acontece, torna-se extremamente atento aos desejos e necessidades de consumo do ser amado. Alma sensível, não sabe dizer não – o problema é que suas amadas geralmente são exigentes, sofisticadas e carentes de roupas, perfumes, celular, MP4 (“o 3 já está fora de moda, amor”) e outros acessórios indispensáveis para turbinar a formosura das deusas. Dizem que a origem do seu último crack financeiro foi o custo de implantes de silicone. Não pra ele, é claro.  O problema é que meu amigo não tem sorte e só se envolve com mulheres emocionalmente volúveis. Quando o crédito na praça se esgota, elas partem e ele fica com as faturas dos cartões de crédito e o coração partido. No fim, tudo acaba bem. Neste final de ano, por exemplo, deve embolsar uma bela bolada (salário vitaminado, gratificação nababesca, além de outros mimos monetários, de acordo com o Moah). É mais do que suficiente para pagar as dívidas e habilitá-lo a um novo amor.

Porém, nos períodos de vacas magras, o Urso sofre. E também se esconde. Simplesmente isola-se do mundo: não abre a porta da cobertura para ninguém. Só se comunica com o pessoal do jornal.

- Aposto que está todo borrado de medo – observou o Duca, cruel.

Defendi o camarada ausente:

- Não é isto. Ele é responsável, ao contrário de vocês, seus pândegos.

O Moah sentenciou:

- Viadagem, frescura, parece uma mãe - (muito tempo atrás quando a gente queria dizer que um cara era bunda mole - ou “mol”, de acordo com a gurizada de hoje - falava que era uma “mãe, mãezinha, mãezona”. Nunca soube a razão. Afinal, mãe é legal).

O talentoso editor de trancinhas tomou um gole do bourbon feito no Tennessee e complementou:

- Um dia destes quase enfiei o pé na porta do apartamento dele.

- Porra! – falei.

- De novo? – perguntou o Duca.

***

A explicação do Moah e a indagação do Duca  integram o segundo ponto de pauta do nosso encontro, que trata do tema Saúde. Como este post já está muito extenso e eu já enchi muito a paciência do amado leitorado, continuo outra hora. Talvez na quarta-feira.

***

Beijos, princesas. Abraços, cavalheiros.

Abaixo a ralé.

Boa semana para a nobreza. Brioches para todos nós.



Escrito por Jens às 17h42
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O retrato do bagual quando jovem

Hoje estou aqui no Palimpnóia. Confira o nascimento de uma lenda.

Beijos, abraços.



Escrito por Jens às 23h51
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Tudo por dinheiro

Domingo lindo, tarde de sol e eu não sai de casa. Preferi espiar a vizinhança pela janela e ver TV. Ócio total. Nada daquele ócio criativo, apenas a boa e simples vadiagem. Deitado no sofá, zapeando, deparei-me com Silvio Santos na telinha. Estacionei. Ele estava distribuindo dinheiro. Mais precisamente, 6 pilas, que fez questão de anunciar 60 vezes (pagou em notas de 100). Uma mulher recebia a grana com um sorriso besta e as mãos trêmulas. Me deu vontade de entrar na telinha, dar uma voadora na dama - na juventude era conhecido como o Rei da Voadora e do Rabo-de-arraia (apelidos plenamente justificados pela minha destreza corporal) - e embolsar a grana. Sim, sim, a inveja é uma coisa feia.

No final, SS disse que qualquer um poderia estar ali. Para isto, basta escrever uma carta, relatando as mazelas financeiras. Mas tem que ser verdadeira e comovente, alertou o animador. O prêmio máximo é de 10 paus.

Bem, por este valor eu posso ser não apenas comovente e verdadeiro, mas também alinhar algumas inverdades no texto. Já comecei a rascunhar a cartinha revelando o meu calvário pecuniário, a saber:

1. Sou persona non grata na vizinhança. As donas de casa me viram a cara; as crianças quando me vêem saem correndo aos prantos; os pais de família me negam solidariedade neste momento de opróbrio. Recentemente, os comerciantes fizeram uma manifestação na frente do castelo, com faixas, cartazes e megafone, exigindo o pagamento imediato das dívidas. Liguei para a polícia. Os homens da lei me mandaram pagar e não chiar.

2. Meu nome está não apenas no Serasa e no SPC, mas também na CIA, FBI, Al Qaeda, Abin, PF, Inamps, Ibama, STF...

3. Em razão da desdita monetária, faz seis meses que não sei o que é ter conúbio carnal com alguém do sexo oposto. Aliás, o que é conúbio carnal? Esqueci.

***

E aí, será que SS vai se comover?

***

Oremos. O verão está aí e a praia me chama. Aos berros.

Beijos, damas. Abraços, cavalheiros.

Ótima semana pra todos nós.



Escrito por Jens às 13h15
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Na hora da partida

 

Um dia vou morrer. Se tiver sorte, daqui a uns 30 anos. Como meu pai.

Ele morreu com 81 anos, em 2004. Um pouco antes, já doente, foi, com a mãe, para a casa da mana Rosa em Floripa. Nada demais. Ela e o Beto, meu cunhado (o irmão que a vida me deu), cresceram sob a égide da velha escola: família, antes de tudo e até o fim. O pai os ajudou no começo da vida a dois – assim como fez comigo. Era o momento de retribuir.

Também fiz a minha parte, de acordo com as minhas possibilidades (um homem é um homem e suas circunstâncias. Ortega y Gasset estava certo).

Um dia a Rosa ligou. Não mandou, não pediu, apenas disse:

- Vem.

Mesmo querendo negar, entendi. Fui.

Na época, eu e a Bete já estávamos separados fisicamente (emocionalmente, jamais; afinal, temos a Mari Timm). Ela ligava todos os dias. Foi a Rosa que falou:

- Diz pra ela vir. Está chegando a hora.

24 horas depois ela chegou e imediatamente integrou a maratona de revezamento no hospital – eu e o Beto à noite, em madrugadas alternadas, ela e a mãe pela manhã, a mana Rosa à tarde.

No dia 24 de julho meu plantão terminou às 9 horas. Estava tentando dormir quando a Rosa veio avisar. O pior, e inevitável, havia acontecido.

No hospital, a Bete me abraçou, chorando:

- Ele me deu tchau.

Ela estava sozinha quando o pai segurou sua mão, encarou-a e disse adeus antes de fechar os olhos definitivamente. 1 hora antes eu havia lhe dado água para beber.

Depois, ajudei a vestir o pai com o terno cinza que ele gostava, para o adeus final. Compreensivo, o Beto foi até em casa e trouxe uma gravata escura. O homem magro não poderia ir embora sem ela. Partiu como sempre viveu: elegante.

Um dia vou morrer. Com sorte, daqui a uns 30 anos.

Quero ir como meu pai, sob o olhar atento e carinhoso de uma mulher.

***

Pra quem não sabe, a Bete é a Beti Timm, que pode ser encontrada aqui (textos e imagens) ou aqui (somente desenhos). Qualquer uma das opções é uma boa escolha. Vale a pena ler (ver) e se encantar.

***

Beijos e abraços amplos, gerais e irrestritos.



Escrito por Jens às 23h06
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Amor, sempre

(O texto a seguir integra a blogagem coletiva sobre adoção proposta pela Geórgia Aegerter e pelo Dácio Jaegger).

***

 

Amor, sempre

 

Aconteceu em 1985, quando me encaminhava para entrar na Idade da Razão (Entrei? Há quem duvide). Trabalhava como assessor de imprensa no Sindicato dos Bancários de POA. Vivia debaixo do mau tempo: o governo havia decretado a intervenção no Banco Sulbrasileiro (banqueiro ladrão não é uma invenção recente). Nós lutávamos para preservar o banco e os empregos (a instituição se salvou – hoje é o Santander -, já os empregos...). Nossa diretriz era simples: se liquidar o pau vai quebrar. Trabalhava 18 horas por dia e estava feliz. Era a volta do cipó de aroeira; a ditadura, sob o comando do general Figueiredo, estava moribunda. Pau na canalha.

***

Numa tarde de setembro, o Bento anunciou:

- Tem uma mulher aí querendo falar contigo.

- Quem é?

- Não sei. Não disse o nome.

- Tudo bem, manda entrar.

Entrou. A bruxa era gorda, feia e suja.

- Onde está o teu pai? – perguntou.

- Em casa – respondi.

Ela insistiu.

- Não, estou falando do teu pai verdadeiro.

- Está em casa – reafirmei irritado.

- Estou falando do teu pai de verdade.  Este aqui – a vaca malvada colocou na frente uma foto em preto e branco de um homem muito parecido comigo. Poderia ser meu irmão. Ou meu pai.

- Que merda é esta?

- Este é o teu pai. Tu é filho dele e da... (disse o nome de uma mulher que eu conhecia, mas que não era a minha mãe). Ele quer te conhecer. Os teus outros irmãos, também.

Foi assim, no ano do meu 30° aniversário, que descobri algo que eu não queria e nem precisava - era filho adotado, um bastardo.

***

Na verdade, eu suspeitava. Ou, inconscientemente, sempre soube, segundo a analista que me acompanhou nos cinco anos subseqüentes. Desde a infância, eu não apenas me orgulhava da solidez da família (pai, mãe e mana – unidos) como também procurava semelhanças com meu pai (uma vez deixei que um amigo fizesse caminhos de rato na minha cabeça, apenas para ficar com uma calvície semelhante a dele). Porém, eu era mais parecido com meu avô materno (não por acaso, descobri depois).

A revelação machucou a alma, arranhou o coração. Não tanto pelo fato em si, mas pela maneira como foi revelado. Aquela mulher transpirava maldade – era quase palpável a intenção de ferir, destruir a nossa família. Não conseguiu.

***

Era noite, eu estava sentado em uma mesa no fundo do bar, quando o pai chegou. Quis saber:

- Muda alguma coisa?

- Pra mim, não.

- Ótimo. Pra mim e pra tua mãe também não. Sou teu pai e ela é tua mãe. Sempre foi assim e vai continuar sendo. Nós te amamos. Tu e a tua irmã.

- Ela...

- Também é adotada. É tua irmã por parte de mãe (quando soube, depois, a mana disse simplesmente: "tô nem aí, não quero nem saber").

O pai pagou a conta.

- Levanta. Não chora. Lava o rosto e vai pra casa. Tua mulher e tua filha estão te esperando.

Antes de ir embora, indagou:

- Queres te encontrar com ele?

- Não. Quero que ele e sua gente sumam da minha vida – dei a foto para ele.

O pai olhou, guardou no bolso e disse:

- Tudo bem. Eu resolvo.

Resolveu. Nunca mais me procuraram.

***

Eu menti quando disse para o pai que tudo continuaria como antes. Na verdade, algo mudou. Os laços familiares ficaram mais apertados, meu amor pelo pai e a mãe tornou-se mais sólido. Percebi que, assim como a mana, havia sido escolhido por eles para ser amado. Fui (sou) um privilegiado. Não poderia ter tido pai e mãe melhores.

Thanks.

***

Beijos. Boa semana pra todos nós.



Escrito por Jens às 08h53
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Blogueiro em manutenção

 

Momentaneamente com defeito. Volto quando estiver sarado.

***

Enquanto isto, confiram aqui.

Beijos, abraços

Cuidem-se! (não façam como eu).



Escrito por Jens às 11h44
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O vô

- Espeeeera, Beto!

Ele olhou para trás e diminuiu o ritmo da corrida. Quando me aproximei, falou:

- Vambora, sebo nas canelas.

O Beto tinha oito anos, dois anos a mais do que eu, e era magro e ágil. O meu melhor amigo.

Além de ser mais novo, eu era mais rechonchudo, graças ao doutor Fontoura e seu biotônico, e também menos ágil (certa vez, ao escalarmos uma pedreira, por pouco não me esborrachei entre as pedras. O Beto me salvou; era magro e forte).

Corríamos com os pés descalços, as havaianas enfiadas entre os dedos da mão. Segundos antes uma voz gutural nos ameaçara:

- Vou pegar vocês!

***

A rua Mario de Andrade, em Ipanema – onde eu morava no número 159 – terminava em um mato, com árvores, arroio, banhado, pássaros, cobras e vacas que pastavam placidamente. Era o nosso parque de diversões (mais tarde seria também o nosso motel imaginário. “Vamos ali no matinho”, convidávamos. A gurias nunca foram, infelizmente). Naquela tarde de início da primavera fazíamos o costumeiro: brincar no mato. No entanto, mal ultrapassamos a cancela da cerca quando ouvimos a ameaça aterradora, vinda detrás da grande figueira:

- Vou pegar vocês!

Assim, pernas pra que te quero.

Cheguei em casa aos berros.

- Manhê, o lobisomem está atrás de mim.

Ela não acreditou. Afinal, o lobisomem só aparecia nas noites de sexta-feira de lua cheia.

A mana Rosa, cinco anos mais velha, procurou me acalmar:

- Não era lobisomem, seu bobo. Era o Monstro Negro.

Berrei mais alto. Estava prestes a me borrar.

O “Monstro Negro” era um estuprador procurado pela polícia. Naquela semana, sua foto saíra na capa da Folha da Tarde que o pai comprava todos os dias. A manchete gritava: MONSTRO NEGRO, INIMIGO PÚBLICO Nº 1. Diziam que estava homiziado nos matos da zona Sul, pronto para atacar meninas e meninos imprudentes. O bairro estava apreensivo.

Preocupada, a mãe estava tentando entender o que estava acontecendo quando ele chegou, gargalhando.

***

Era o meu avô Daniel, o pai da mãe.

Recém chegado da invernada, estava dando de comer ao Tubiano (seu cavalo) quando surgiu a oportunidade de nos pregar uma peça. Não resistiu.

O vô era assim, um sujeito alto, magro e bem humorado, que gostava de contar histórias sobre dragões, lobisomens, cobras gigantes e outros seres assustadores, que eu e minha mana escutávamos com atenção e olhos arregalados. Morava em uma peça, o quartinho, feita pelo pai nos fundos da nossa casa – uma casa grande com dois quartos, sala, varanda, cozinha e banheiro e um amplo pátio com jardim na frente e, nos fundos, duas laranjeiras, uma bergamoteira, um grande galinheiro e uma nesga de capim que servia de quarador.

Homem afeito às lides do campo, nos meses de inverno o vô trabalhava em uma fazenda para os lados de Itapuã, para onde ia conduzindo o Tubiano atrelado à carroça, escoltado pelo fiel Fumaça, mais do que um cão, seu companheiro. Na volta, trazia aipim, batatas, ovos, melado, rapadura, torresmo, lingüiça cortada à faca, queijo e galinhas para vender. Por vezes, a carroça deixava ser o que era para se transformar em uma diligência, de onde exterminávamos os malditos peles vermelhas. A primeira e única vez que andei a cavalo foi no lombo do Tubiano.

O vô morreu com 92 anos na sala de casa, convertido à religião evangélica. Eu tinha 11 anos e estava presente quando ele se foi, rezando com a D. Elvina, enquanto a mãe chorava na varanda.

Eu era o seu neto preferido – “o meu guri”.

Nunca o esqueci.

 

***

Tem novidade na web. Aqui no Nóia. Eu, se fosse você, dava uma passada lá. Aposto que vai se surpreender. Permita-se.

***

Boa semana pra todos nós.

Beijos, maravilhosas. Abraços folgazões.

Pra cima com a viga, moçada!



Escrito por Jens às 23h02
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Ladies and gentlemen

 

O cavalheiro está macambúzio?

A bela dama está tristonha?

Briga de amor?

Má sorte nos negócios?

Os petizes não lhe dão trégua?

Os credores estão impacientes?

A solidão incomoda?

***

Acalmai-vos. Ou melhor, regozijai-vos.

Tem novidade nas ondas da web. É o Palimpnóia (Palim - ou Nóia - para os íntimos que vocês logo se tornarão), um blog feito a 12 mãos por três belas damas e três bons rapazes (nem tanto assim, afinal, estou entre eles). Trata-se de um lenitivo contra as dores de amor e as desditas financeiras. Também é recomendado para insônia, dor de barriga, espinhela caída, lumbago e catarata. Enfim, um blog de múltiplas utilidades. Um bálsamo benigno.

Para acessar e saber quem está lá, basta clicar na imagem aí embaixo.

Esperamos todos contar com a prestigiosa presença de cada um de vocês.

***

Bom findi. Não façam nada que eu não faria. Ou seja, tá tudo liberado!

Beijos, lindas. Abraços, valentes.

Arriba!



Escrito por Jens às 21h58
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Corações alados

 

Simon, Fagner e eu. Tinha outras fotos, mas a que se salvou foi esta. O Moah, decididamente, não é fotógrafo. PS: não sei onde foi parar o cabelo do topo da minha cabeça. Juro que tinha mais.

 

Assustado, o vate cearense recuou. Nós fomos em frente.

- Ahhhhhhhhhhhhhhh.... coração alado, desfolharei meus olhos neste escuro véu/ não acredito mais no fogo ingênuo da paixão/ são tantas ilusões perdidas na lembrança...

Passada a estupefação, o ídolo compreendeu a homenagem a agradeceu.

- Valeu, rapaziada.

- Ué, cadê o violão? – indagou o Moah.

Levou uma cotovelada nas costelas. Era o Chefe.

- Isto aqui não é um show. Apenas um encontro entre amigos. Nada de pedir música. Comportem-se.

Eu, que já estava com o gravador encostado na boca do convidado (“canta Jura Secreta”), recolhi-me. Sou um gentleman, ainda mais diante de uma reprimenda de quem me paga o salário.

Fizemos o velho jogo social dos machos.

- E aí, e as mulheres?

- Beleza.

- Alguma música nova?

- Beleza.

- E o Fluminense?

- Beleza. Ops, não, este tá mal. Hehehe...

***

Impressões: Raimundo está fisicamente bem. Magro. No rosto, as marcas do tempo. Cabelos grisalhos e abundantes. Nenhum sinal de calvície. Vestia camisa preta de mangas curtas para fora da calça de brim igualmente preta. Na cabeça, um boné sem patrocinador, e nos pés, tênis. Ambos pretos. É um boa praça, mais falante que o Francisco. Também fuma Hilton, adora uma boa piada e não gosta do PT (ninguém é perfeito).

***

- E a entrevista, pô?

- Bah, não tem clima. É uma festa.

- Azar. Vamos dar um coxaço no cara.

Fomos.

Fagner se mostrou gentil.

- Claro, não tem problema. Vou adorar ser entrevistado por vocês...

(Hehehe, está no papo)

- ... no Rio de Janeiro.

Puta merda! De novo.

- Certo – disse o Moah. O Chico também se dispôs a nos dar uma entrevista lá. A gente marca um jogo de futebol e depois conversamos

- Beleza – concordou o Fagner -, quando?

- Qualquer hora. A gente avisa.

***

- E agora?

- Agora, o quê? Não tem entrevista. Quero uma foto e um autógrafo.

- E a matéria? Não temos a matéria – senti um leve tom histérico na voz do meu associado.

- Depois eu dou um jeito. Publicamos umas fotos e um texto estilo coluna social. Um registro histórico. Deixa comigo.

Estou matutando até agora. Como fazer um texto sobre um fato que só interessa a quem estava lá ("Manhê!, olha eu e o Fagner")? Preciso regar minha plantação de abobrinhas.

***

Aviso aos navegantes: Relevem minha ausência em suas moradas nos últimos dias. Estou atrolhado de trabalho. Mas eu volto.

Beijos e abraços.



Escrito por Jens às 21h08
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Churrasco e pudim

 

Enquanto o Fagner não chega, contentem-se comigo. Bjs

Chegamos cedo. Apenas meia hora de atraso. O Chefe Simon estava nervoso, principalmente porque, além de anfitrião, estava investido da tarefa de churrasqueiro. O companheiro que tradicionalmente assume esta incumbência nos rega-bofes promovidos pela nossa Liderança Maior fez forfait.

- Porra, estão atrasados.

- O homem já chegou?

- Não. Não é certo que ele vem. Está em Gramado.

- Hummm...

Fiz beiço. Não gosto de abandonar o castelo, principalmente à noite em dias de semana (tenho medo de assalto). Sair de casa para encontrar Fagner e não encontrar o Fagner atiçou meu mau humor.

- Os uruguaios já estão aí – informou o nosso Guia Genial.

Os uruguaios eram o Jorge Larrionda (árbitro FIFA) e os assistentes Pablo Fandino e Walter Rial, que no dia seguinte seriam os responsáveis pela arbitragem do jogo Inter X Boca Juniors (vencido pelo Glorioso Colorado dos Pampas por 2 X 0). Também estavam lá o presidente da Comissão Estadual de Arbitragem do RS, o Luiz Fernando Moreira, e o relações públicas da Confederação Sul-Americana de Futebol, Dario Goes, e outros espécimes da raça humana que não citarei porque não terem títulos assim tão importantes. Detesto pobres. Mesmo que sejam limpinhos. Sorry.

Pensei: “Grande África” (será que alguém ainda usa isto? Mais ainda, de onde surgiu esta expressão da minha infância e juventude? Help, Luma). Porém, como determinam as regras da boa educação, cumprimentei-os afavelmente:

- Oi, seus porras, não roubem o Inter amanhã – acrescentei um “por favor” (sou um sujeito civilizado).

Demos início aos trabalhos. Fui na cerveja. O Moah resolveu calibrar o que ainda resta do seu intelecto privilegiado com uma cachaça especial, vinda especialmente dos barriletes encantados de Santo Antonio da Patrulha. Atendendo aos reclamos do estômago, saturado de sanduíches de queijo e presunto, puxei o Chefe para um canto e reivindiquei:

- Libera a carne. Tô morrendo de fome.

O Moah, que estava por perto, corroborou:

- É isso aí. Faz uma semana que não como nada decente.

Sensível, o amado Chefe – que deve apitar sua terceira Copa do Mundo (algo inédito entre a arbitragem de futebol tupiniquim) – atendeu aos nossos apelos.

- Pessoal, vamos comer.

Não foi preciso um segundo aviso.

Os invejosos (sempre os há) que não pertencem ao mundo maravilhoso da imprensa escrita, teceram alguns comentários recheados de sarcasmo.

- A imprensa já está na mesa.

- Porra, que voracidade. Nunca vi uma coisa destas. Ninguém alimenta estes caras?

- Não sabia que jornalistas eram uns mortos de fome.

Concentrados nas saladas de tomate, alface e maionese e porções generosas de salsichão, picanha e costela gorda (“mais,mais...”), encontramos espaço para rebater as críticas:

- Não trabalhamos na Globo, seus porras! Um homem precisa se alimentar.

Simon, presidente do Sindicato dos Árbitros do Rio Grande do Sul, interveio:

- Deixem os meus rapazes em paz. Eles são os homens do presidente.

- Valeu, querido Chefe – grunhimos em agradecimento, entre uma garfada e outra.

Já mais calmos, com a fome saciada (mas de olho no pudim e na ambrosia da sobremesa), ouvimos o toque do interfone.

Cátia, a primeira dama, que até então não havia nos brindado com sua presença, assomou no último andar da cobertura e informou:

- Simon, o Fagner chegou.

Eu e meu associado Moah trocamos um olhar cúmplice. Caralho, o Fagner! Havíamos nos preparado para aquele momento.

Quando o menestrel de Orós adentrou no recinto, eu e meu companheiro – abraçados- o saudamos com a performance especialmente preparada para a ocasião:

- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

***

Continua na quarta-feira (com a foto, a foto!!!)

***

Beijos, gostoduzuldas (com todo o respeito). Abraços, maganões.

Bela semana pra todos nós.

Pra cima com a viga!!!

***

(Interessante: o post anterior, desagradável, sumiu. Não fui eu que exclui o Crime e Castigo. (Mistérios da web...)



Escrito por Jens às 18h42
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