Toca do JENS


O homem magro

O homem magro, negro, de terno, gravata e chapéu com a aba quebrada, intimou o mulato claro de calça escura e camisa branca esporte:

- Levanta, vamos embora.

O jovem, que repousava a cabeça entre os braços cruzados em cima a mesa, abriu os olhos avermelhados sob as pálpebras inchadas:

- Me deixa.

O homem magro avaliou o ambiente: uma espelunca encravada no centro da rua Cabo Rocha, no bairro Praia de Belas, o local mais barra pesada do submundo miserável da Porto Alegre do início dos anos 50. Covil de rufiões, traficantes, ladrões, assassinos. Lar de proxenetas e marafonas. Se fosse encontrado morto em alguma viela o fato não causaria maior interesse à sociedade em geral. Uma notinha num canto da página policial dos jornais e nenhuma providência por parte da polícia. Aquela era uma terra sem lei e sem ordem, especialmente para um homem como ele: negro e pobre. Mas tinha uma missão a cumprir.

- Vem, vamos embora, insistiu pegando o mulato pelo braço.

Um homem gordo, negro, vestindo um ensebado uniforme da Aeronáutica com a insígnia de sargento no braço, falou com voz de mando, exibindo um grande dente de ouro:

- O guri não vai a lugar nenhum. Ele quer ficar.

Além de malcheirosa, a espelunca era mal iluminada. O cheiro era uma mistura de maconha, sexo doente, cigarros, bebida barata e láudano, muito láudano. Poucos fregueses se abrigavam sob a fraca luz vermelha: em pé, recostadas no balcão, duas mulheres com pintura demais no rosto e roupa de menos no corpo; sentados, numa mesa de canto, o homem gordo com três capangas, bebendo cerveja e mais alguma coisa em copos pequenos que ele não soube identificar; e o jovem sentado à sua frente.

- Ele vai comigo. Tem que ir, respondeu o homem magro com calma.

- Talvez tu não saia daqui. Não vivo, retrucou o gordo, colocando um punhal brilhante sobre a mesa.

Os valentões sorriram.

O magro sabia que era potencialmente um homem morto. Mas não tinha escolha. Tinha que seguir em frente.

- Pode ser, ele disse, mas vou tentar a sorte. Apoiou-se com força em uma cadeira vazia, que planejava arrebentar na cabeça do gordo, caso fosse necessário.

O sargento ficou intrigado.

- Por que o interesse? O guri é teu amante?, indagou, limpando uma unha grande e suja com a ponta da adaga.

O outro não se perturbou.

- É meu sobrinho. Faz três dias que sumiu de casa, por causa das drogas, cocaína e láudano. A mãe está desesperada, os três irmãos menores estão aflitos. O pai, meu irmão, faleceu três anos atrás. Eu também sou seu padrinho. Sou responsável por ele.

Um resgate familiar. Um compromisso de honra. Isto o homem gordo era capaz de entender. E respeitar.

- Hoje é teu dia de sorte, paisano. Leva o frangote. Te garanto salvo conduto, disse o gordo.

Voltou-se para um dos capangas.

- O paisano está sob minha proteção. Ninguém toca.

O vassalo saiu para espalhar a ordem.

O homem magro ergueu o mulato claro e saiu, amparando-o pelos ombros. Na porta, virou-se e fez uma saudação final ao gordo, tocando a aba quebrada do chapéu. O gordo respondeu com um aceno amistoso com o punhal.

***

Aconteceu em uma era quando gigantes habitavam estas plagas. Bons e maus. Alguns deles capazes de demonstrar honradez nas situações mais perigosas e inusitadas.

***

O homem magro, negro, de terno, gravata e chapéu com aba quebrada ainda não sabia, mas alguns anos depois se tornaria meu pai.

O meu herói.

***

Beijos, meninas. Abraços, meninos.

Bom findi pra todos nós.

Escrito por Jens às 19h50
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Elucubrações

Faz mais de 24 horas que não pronuncio uma palavra. Desde a meia-noite de ontem. Durante o dia não tive nenhum motivo para falar – não sai de casa, o telefone não tocou, ninguém veio me visitar e não ouvi nenhuma canção que desse vontade de cantar.

Fiquei pensando: e se eu perdi a capacidade da falar? De repente estou mudo e não sei. Claro que poderia esclarecer a questão agora mesmo, basta abrir a boca e dizer qualquer coisa: socorro, por exemplo. Ou tareco, uma palavra do tempo da minha infância querida que os anos não trazem mais. Porém, prefiro cultivar carinhosamente a dúvida. Meu destino é sofrer. E pecar.

Também quero ver quanto tempo posso prescindir do uso da fala.

***

Estou avaliando seriamente a possibilidade de dar um golpe no mercado. Não um golpezinho qualquer, mas “o” golpe. E não estou falando do mercado da esquina, mas do mercado financeiro. Tenho que pensar no futuro. Mais especificamente, na ilhazinha paradisíaca que pretendo adquirir nas Bahamas para passar a outra metade da existência, com incursões ocasionais a Paris, naturalmente.

Ainda estou na fase inicial do plano. Meus estudos revelaram que o campo mais promissor para o enriquecimento rápido e impune é aplicar um golpe no poder público. Aqui no RS, por exemplo, os caras roubaram R$ 40 milhões do Detran e ninguém cogita seriamente a hipótese de que qualquer um deles vá ver o sol nascer quadrado. Ao contrário, a justiça está esforçando-se para garantir que isto não ocorra, permitindo que não digam uma única palavra comprometedora na CPI da Assembléia Legislativa. Acontecem situações engraçadamente absurdas:

Deputado: O senhor almoçou hoje?

Depoente: Invoco meu direito de permanecer em silêncio, pois a resposta a esta pergunta pode me incriminar.

***

Voltando ao que interessa: estou pensando em abrir uma empresa fajuta e pegar um empréstimo de alguns milhões de reais no BNDES. A fundo perdido, é claro. O ideal seria me eleger deputado federal ou senador. Preciso retomar meus contatos na seara política.

À luta, companheiros.

***

O general inverno já enviou seus batedores. A batalha vai ser dura. Já estou preparando o armamento pesado, a saber: minha super jaqueta de couro e o meu casaco três quartos de estampa xadrez e corte inglês.

Encarangado, mas com charme.

***

Assassinaram mais um bar. O Timbuca, que ficava na beira do Guaíba, no bairro Assunção. Foi abatido a golpes de trator pelos sequazes do camarada Fogaça. Freqüentei nos anos 70, quando era delinqüente juvenil e líder de gangue. Naquela época era o boteco dos muito loucos.

Não que eu fosse (muito louco); só estava lá por acaso.

***

Tá, fui.

Beijos, beldades. Abraços, rapazes.

Arriba!

Escrito por Jens às 00h47
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Batismo de fogo

 

O comandante Jair deu a ordem:

- Porra, sujou! Corre! Corre! Vambora!

Bom recruta, obedeci incontinenti. Sebo nas canelas.

Era cerca de 1 hora da manhã de uma madrugada primaveril de domingo. Estávamos na pracinha central de Ipanema. Eu tinha 13 anos e era a primeira vez que participava de uma guerra com caras mais velhos.

***

Tudo começou ainda no sábado, pouco antes da meia-noite, na festa de casamento da filha do Osmar. O casório estava animado quando os intrusos chegaram. Eram seis, estavam visivelmente embriagados, possivelmente “topados de tóchico, emaconhados e emboletados”, como diria minha mãe. Começaram a fazer arruaça em frente a sede social do saudoso Esporte Clube Ipanema. Queriam participar do festerê.

- Quem são esses porras?, indagou o Chú, líder intelectual da rapaziada.

- Uns merdas lá do Guarujá, informou o Paulo Magro, com a voz engrolada pelo excesso de álcool.

- Isto vai dar merda, vaticinou o Jair, antes de entornar goela abaixo o conteúdo da sua jarra de chope.

Osmar, o dono da festa, confabulou com os indesejáveis. Peremptoriamente, negou acesso ao recinto, mas, procurando evitar o acirramento de ânimos, fechou um acordo de cavalheiros. Deu comida e bebida (um bandejão com churrasco e carne de porco e uma garrafa de Natu Nobilis, para contrariedade do Paulo Magro - “pô,  Natu pra eles e Velho Barreiro pra nós. Isto não tá certo”) e despachou a canalha, que se foi rindo, fazendo referências desairosas à nossa masculinidade, à beleza e à honra de nossas irmãs, namoradas, amigas e, suprema ofensa, mães.

O Beto, meu futuro cunhado, que recém levara minha irmã em casa, com o pai e a mãe, expressou a vontade geral:

- Isto não vai ficar assim. Vamos dar um pau nestes folgados.

Diante do alto calibre das ofensas, o Chú concordou que só o castigo físico poderia limpar nossa honra maculada.

Como agora o assunto era de natureza bélica, Jair, o Senhor da Guerra, assumiu o comando das atividades. A estratégia era simples.

- A gente desce, encontra eles lá na praça e desce o cacete.

Apoiei o plano:

- Vamos arrebentar estes fiadasputa, falei entusiasmado.

Meu futuro cunhado protestou:

- Tu não vai, seu porrinha. O teu velho descobre e eu vou me incomodar.

Subi nas tamancas:

- Uma merda que eu não vou.

O Chú impôs a sua liderança e colocou fim à discussão, dizendo que se eu já podia ficar até tarde na rua e sair com os grandes, também podia encarar paradas indigestas como aquela. Estava na hora de aprender. Porém, desta vez seria apenas um observador, sem interferir no conflito.

- Tá legal, falei.

***

Na praça, o pau comeu. Socos, pernadas, cabeçadas, gritos de dor e xingamentos. O comandante Jair era um gigante (dois metros de altura e dois de largura), orientando suas tropas e, ele mesmo, distribuindo tabefes e pontapés. Eu apenas observava, juntamente com o Paulinho do Martinez, que segurava um sarrafo de boa madeira.

De repente, entramos em ação. Um dos inimigos caiu. De quatro, tentava reerguer-se quando o Paulinho correu e desceu o sarrafo no lombo. O cara disse um aí antes de beijar a terra vermelha. Aproveitei e desferi três pontapés nos países baixos.

- Fala da minha mãe agora, fiadaputa!

Não falou, só gemeu.

O combate durou pouco. Os invasores fugiram em desabalada carreira, como um bando de mulherzinhas. Fui atrás:

- Volta aqui seus bundamol.

Beto me deu um cascudo.

- Sossega, porra.

O chefe dos vilões ficou pra trás, boxeando com o Chú. Na verdade ele oferecia sua cara, inchada e coberta de sangue, para o Chú bater com a elegância natural que imprimia em todos os seus gestos. Bonito de ver. Eu e o Paulinho aguardávamos o nosso momento, ele com o sarrafo, eu ajeitando a botina.

***

Foi então que ouvimos a sirene e o Jair deu a ordem de debandar. Eram os brigadianos do postinho, inaugurando a sua nova viatura. Foi cada um prum lado. Nunca corri tanto. Cheguei em casa ofegante. O pai abriu a porta e perguntou se estava tudo bem (ainda tinha não a chave da casa – direito conquistado aos 15 anos). Bebi uns dois litros de água antes de deitar.

Puta merda, minha primeira briga de rua. Que medo! Que legal!

***

Foi neste dia, naquela praça, que nasceu a maior lenda de Ipanema, o grande líder que iria unificar e comandar por anos a fio as legiões rebeldes que circulavam por aquelas ruas, becos e vielas; o rebelde sem causa que seria amado pelas filhas, odiado pelos pais e venerado por seus pares; o outsider que seria louvado em prosa e verso pelas gerações seguintes; forjou-se ali, naquela madrugada incipiente, o homem destinado a mudar os rumos da...

***

(Perdão pela interrupção, leitores. Aqui é Bob, o botão da calça Levi’s do Jens, sua consciência crítica. Ele está delirando. Estou preocupado com sua saúde mental. Na verdade, depois desta noite, o covardão, que gosta de bater quando o inimigo não pode reagir, nunca mais brigou. Ficou apavorado com a violência.  Enjoou e vomitou quando chegou em casa, preocupando e dando trabalho para o pai e a mãe. Até hoje sua primeira reação diante de um entrevero físico é fugir. Sebo nas canelas é o seu lema).

***

Por hoje é só.

Beijos, belas. Abraços, mandriões.

Arriba!

Escrito por Jens às 22h47
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Inuktitut, vejo a vida com o velho Jack Daniel's
Histórico
Outros sites
  Adelaide Amorim - Umbigo do Sonho
  Balaio Vermelho
  Blog da Magui
  Blog da Re - Neurótika.com
  Blog da Tathiana
  Blog de Mi Saboleski
  Blog do Edu
  Blog Gente
  Blog do Kayser
  Chawca - Meu ouvido não é pinico
  Cherry
  Cris
  Dora Vilela
  Elô
  Fernanda
  Gazeta Mundo Cão
  Infinito Positivo
  Jean Scharlau
  Jota Effe Esse
  Juliano Rosa
  Lino Resende
  Loba
  Lola
  Luz de Luma
  MarciaClarinha
  Marconi Leal
  Mari Riccordi - Rabiscos e Borrões
  Mundo Piero
  O Refúgio
  O templo da Sacerdotisa
  Pirata Zine
  Ração (Razão) das Letras
  Reação Cultural
  Resumo da Chuva
  Rosa Choque
  Roy Frenkiel
  Shi (Putitanga!)
  Só para iniciados
  Tânia
  Uma conta Um conto
  Blog do Luis Nassif
  Blog do PH Amorim
  Blog do Zé Dirceu
  Blogoleone
  Carta Capital
  Carta Maior
  Dialógico
  Diario Gauche
  Entrelinhas - Mídia e Política
  Fazendo Média
  Ignorância Times
  Memória Viva
  Observatório da Imprensa
  Ponto de Vista
  RS Urgente
  SAFERGS
  Sinopse - Agência Brasil - Radiobrás
  SIVUCA - Os sem-mídia contra-atacam
  Vi o Mundo - LC Azenha
Votação
  Dê uma nota para meu blog