Toca do JENS


Classificados

Não sou homem de ficar passivo diante dos contratempos da existência. Assim, decidi ampliar os horizontes profissionais, a fim de vitaminar as finanças e colocar um ponto final nas reclamações dos credores todos os finais de mês. Além disso, a reação à fila de comerciantes impacientes que se forma na porta do castelo nestas ocasiões está ultrapassando rapidamente o território das maledicências sussurradas nos corredores e adentrando no perigoso terreno dos protestos explícitos e irados.

- Isto é uma pouca vergonha.

- Aposto que tem sacanagem no meio.

- As crianças estão assustadas. Esta porra tem que acabar.

Temendo o linchamento, não vi outra alternativa que não fosse diversificar as fontes de renda. Sendo mais claro: seguindo uma tendência cada vez mais em voga no país, guardei os escrúpulos no fundo da gaveta das cuecas e, com o denodo que caracteriza um bagual de boa cepa, fui à luta em busca de novos clientes. Se me pagarem, escrevo qualquer negócio.

Esta postura agressiva deu resultado. Aluguei minha pena para três pequenos audaciosos empreendedores, necessitados de uma igualmente audaz assessoria de imprensa e marketing para impulsionar seus negócios. A seguir, apresento-os ao distinto leitorado, que tem direito a 10% de desconto nos serviços oferecidos.

***

Madame Veridiana – Recém chegada da Bahia, com estágio de aperfeiçoamento em São Paulo, onde foi monitorada pessoalmente por Madame Zora Yonara, Madame Veridiana possui dons extraordinários para acabar com olho grande e reatar casos de amor. Além de botar cartas e jogar búzios, desfaz trabalhos de magia negra, branca, azul, amarela, vermelha, verde e furta-cor. Traz a pessoa amada de volta em dois dias, arrastada pela orelha. Também atua na área da saúde, sendo comprovada sua competência em solucionar, entre outros, casos de lumbago, espinhela caída, mau-hálito, surdez, prisão de ventre, hemorróidas, impotência e frigidez. Atende de segunda a sábado, das 14 às 22 horas. Preços a combinar, de acordo com a magnitude do trabalho a ser realizado. Endereço: Rua da Arruda, número 7. Telefone (51) 1366-6666.

***

Laras Drink’s Bar – Onde você encontra belas garotas com toda exuberância, beleza e sensualidade que só você merece. Às terças, Banho de Espuma; às quintas, Buffet Sexy; aos sábados, Piscina de Cerveja; às segundas, atendimento médico gratuito. Todas os dias uma festa diferente, com decoração, garotas variadas, animais quadrúpedes e anões besuntados em legítimo azeite de oliva extra-virgem. Em breve, Cabine Erótica. Local de excelente nível. O atendimento é feito pelos simpáticos proprietários Boca e sua consorte Zuleide de segunda a domingo, das 22 às 5 horas. Endereço: Rua B da Invasão da Aberta dos Morros, sem número. Telefone: (51) 6996-9669.

***

Boteco do Vavau – Com o fim do Bar do Nereu, o Boteco do Vavau tornou-se o reduto natural dos amantes da boa bebida e da boa comida. No quesito alcoólico, além das óbvias loiras geladas, a casa oferece desde drinques populares como guaco, losna e barrouda até os tradicionais Natu e Cavalo Branco para os que gostam de mais requinte. Os fregueses de maior poder aquisitivo têm a opção do velho e bom Jack Daniel’s, o uísque de milho feito no Kentucky. Para os paladares refinados o estabelecimento coloca a disposição uma carta suculenta de petiscos, tais como ovos em conserva (inclusive os de cordorna, extremamente apreciados por suas qualidades afrodisíacas), coxas de frango, pasteis de carne e salsichão. Tudo preparado com extremo zelo e asseio por dona Zulma, a cozinheira, com 48 horas de antecedência. Aos domingos, pela manhã, tarde e noite, churrasco no tonel. Éplocer, Elixir Paregórico, Engov, Sonrisal e Sal de Frutas Eno a preços módicos. Fecha às segundas. Nos demais dias, atendimento das 10 da manhã à 1 da madrugada. Endereço: Quebrada do China, 33. Telefone (51) 5151-3333,

(Na foto acima, eu e a doce Laurinha em frente ao estabelecimento, em flagrante captado por meu associado Moah).

***

Moças e rapazes, divirtam-se no findi.

Arriba.

Escrito por Jens às 14h38
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Passeio noturno

Voltando de táxi de uma noitada com o Caloca e a Marisinha – o intelectual eternamente desempregado e emburrado sentado ao lado do motorista; no banco traseiro minha secretária eventual e gostosa em tempo integral e eu, desfrutando do calor da sua coxa roliça grudada na minha. Desalentado com a incompreensão patronal que não reconhece meu talento, estava com a cabeça recostada no peito saliente e acolhedor da musa, enquanto a mão repousava delicadamente numa das ancas opulentas e macias. Carinhosa e compreensiva, dizia com aquela voz quente e doce que as mulheres usam para consolar e animar os homens: “tudo vai dar certo, chefinho”.

Apesar de inebriado, mantinha o senso de direção. “Entra aqui”, disse para o motorista. Era a rua do Cemitério da Vila Nova, o caminho mais econômico para chegar ao castelo.

Ao ouvir a ordem, o Caloca, ressurgiu das brumas da sonolência alcoólica. “Não, por aí não”, protestou histérico.

“Por que não?” indaguei irritado.

“Não passo em frente a cemitério. Quem não é visto não é lembrado”, respondeu o intelectual forjado em leituras minuciosas de Marx, Lênin e Trostky.

Pensei em mandá-lo à merda. Porém, Bob, a consciência crítica, ponderou que o a objeção fazia sentido, ainda mais para um cara como eu, que acredita não apenas em almas do outro mundo, como em lobisomens e vampiros e outras aberrações das trevas. Uma pressão sutil de Marisinha aconchegando-se a mim fez com que cedesse aos choramingos do intelectual e mudasse a rota. A corrida encareceu 10 paus. Mas valeu a pena.

(Depois fui ressarcido pela firma, mediante apresentação da nota. Meu associado Moah sabe que o jornalismo é caro).

***

Baixaria – Comentário maldoso que ouvi no rádio: depois da mulher samambaia, da mulher moranguinho e da  mulher melancia, o Ronalducho descobriu mulher aipim. 

Repúdio veementemente a baixaria. Tsc, tsc, tsc…

(Comentário do Bob: hihihi…).

***

Terror na madrugada – Tarde da noite. Edifício Glasgow, 15º andar, apartamento 1504. No quarto acanhado, mobiliado parcamente com cama de solteiro, mesinha de cabeceira, abajur e roupeiro, Leonor dorme profundamente com as costas voltadas para a parede, encolhida como um bebê no útero. Está calor, por isto apenas uma surrada camiseta cinza com a estampa I coração NY no peito (herança de uma antiga paixão) cobre o corpo sereno, bonito na sinuosidade de reentrâncias e saliências maduras. De repente, ela geme baixinho em resposta a carícias ousadas de mãos pacientes que desnudam e deslizam com suavidade pelas costas morenas. Estremunhando, começa a fazer as conexões neurais necessárias para explicar racionalmente a substituição da paz do repouso por aquele bem estar morno que conhece tão bem. Quando a letargia dá lugar à lucidez, Leonor percebe que o toque gostoso não é um sonho bom, mas uma realidade distorcida. Alerta, localiza-se no tempo e no espaço e, já sentindo a invasão do medo, se dá conta de que mora sozinha e não poderia haver ninguém com ela na escuridão do quarto. Principalmente nas suas costas, a não ser que estivesse saindo da parede.

A não ser que sejam eles...

Não, eles não! Não, agora.

Grita, mas não é ouvida. Seu reino já não é deste mundo.

***

Beijos, prendas. Abraços, tauras.

Escrito por Jens às 15h52
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Veni, vide, vici

Fui, vi, venci e voltei, contrariando os boatos pérfidos segundo os quais teria perdido o tino de vez e saído sem rumo pelas ruas alegres da cidade, depois da conquista do campeonato pelo Glorioso Gigante Vermelho dos Pampas. O desatino de fato ocorreu, mas durou apenas 24 horas.

Também não é verdade que tenha dado o golpe redentor no mercado e transferido o endereço para o Caribe. Ainda não foi desta vez.

***

Fechamos o jornal na quinta-feira passada. Fizemos em apenas quatro dias, pois, como sempre, deixamos tudo para a última hora. Impressionante que o nosso (meu e do associado Moah) desorganizado método de trabalho tenha resultado num bom produto final. Ficou coxudo. Vencemos de novo. Quem quiser conferir, em PDF, é só clicar na imagem abaixo.

***

Sexta-feira foi o dia do Jantar das Mães, patrocinado pelo amado chefe Simon no Grêmio Náutico Gaúcho. Boca livre ampla, geral e irrestrita. Comilança, beberança e bailança, com direito a show do André Damasceno, o Magro do Bonfa. No dia seguinte tinha a festa de aniversário da querida amiga virtuial Mari Riccordi, a bela soberana dos Riscos e Rabiscos. Porém, condições físicas debilitadas, em razão dos excessos da noitada anterior, não me permitiram comparecer.

Sorry, Mari.

Feliz aniversário, Mari.

***

Em 1979, sob o governo do general Figueiredo, participei da primeira greve dos bancários depois da edição do AI 5, 11 anos antes. Eram tempos cinzentos, com uma legislação draconiana que proibia greves e manifestações estudantis. Fomos para o pau e recebemos o troco. Trabalhava no Banrisul e não perdi o emprego de imediato, como muitos outros companheiros. Cozinharam-me em fogo lento, negando troca de horário e abortando uma transferência prometida e cobiçada para o departamento de Marketing. Ainda no período, protagonizei, na avenida Paraná, sede da Polícia Federal, um desagradável interrogatório com delegado Fuchs, o superintendente da PF no RS. 1 ano depois levei o definitivo pé no traseiro.

Nunca me ocorreu pedir qualquer tipo de reparação por ter participado ativamente da greve. Afinal, sabia que havia uma tempestade de merda e mesmo assim fui para a rua. As perdas foram conseqüências da minha opção.

No entanto, estou tentado a mudar de opinião.

Ontem abri e geladeira e fiquei penalizado com a solidão da velha garrafa de água. A pobrezinha chorava com saudade de velhos companheiros, como leite, frios, carne, ovos, legumes, manteiga, frutas...

Diante do desalento que viu no meu rosto, Bob, a consciência crítica, bateu duro: “deixa de ser trouxa, tonto. Pede!”

Meu implacável amigo se referia ao pedido de indenização da Bolsa Ditadura, por danos econômicos, morais e psicológicos. Ora, se o Carlos Heitor Cony, o Ziraldo e o Jaguar, entre outros, pediram e levaram, por que eu não posso também pedir e levar?

Aliás, aconselho que façam o mesmo aqueles camaradas do Bradesco, Itaú e outros bancos privados que foram demitidos sumariamente depois do movimento. Afinal, tiveram o desenvolvimento de suas carreiras ceifado pelo arbítrio da ditadura militar. Hoje, poderiam ser gerentes, diretores, ou até mesmo presidentes de bancos (o Lázaro Brandão não começou como contínuo e virou presidente do Bradesco?). O Estado nos deve reparação.

À luta, companheiros!

Bolsa Ditadura Já!

***

Então, tá. Ficamos assim: voltei. Estava morrendo de saudade. Nunca mais vamos nos separar, prometo.

Deixem a porta aberta – vou aparecer a partir desta segunda. Não tenho hora para chegar e muito menos para sair.

Beijos rubros, amiguinhas. Abraços pulsantes, amiguinhos.

***

Boa semana para todos nós. Arriba!

 



Escrito por Jens às 16h26
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Inuktitut, vejo a vida com o velho Jack Daniel's
Histórico
Outros sites
  Adelaide Amorim - Umbigo do Sonho
  Balaio Vermelho
  Blog da Magui
  Blog da Re - Neurótika.com
  Blog da Tathiana
  Blog de Mi Saboleski
  Blog do Edu
  Blog Gente
  Blog do Kayser
  Chawca - Meu ouvido não é pinico
  Cherry
  Cris
  Dora Vilela
  Elô
  Fernanda
  Gazeta Mundo Cão
  Infinito Positivo
  Jean Scharlau
  Jota Effe Esse
  Juliano Rosa
  Lino Resende
  Loba
  Lola
  Luz de Luma
  MarciaClarinha
  Marconi Leal
  Mari Riccordi - Rabiscos e Borrões
  Mundo Piero
  O Refúgio
  O templo da Sacerdotisa
  Pirata Zine
  Ração (Razão) das Letras
  Reação Cultural
  Resumo da Chuva
  Rosa Choque
  Roy Frenkiel
  Shi (Putitanga!)
  Só para iniciados
  Tânia
  Uma conta Um conto
  Blog do Luis Nassif
  Blog do PH Amorim
  Blog do Zé Dirceu
  Blogoleone
  Carta Capital
  Carta Maior
  Dialógico
  Diario Gauche
  Entrelinhas - Mídia e Política
  Fazendo Média
  Ignorância Times
  Memória Viva
  Observatório da Imprensa
  Ponto de Vista
  RS Urgente
  SAFERGS
  Sinopse - Agência Brasil - Radiobrás
  SIVUCA - Os sem-mídia contra-atacam
  Vi o Mundo - LC Azenha
Votação
  Dê uma nota para meu blog