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BRASIL, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Inuktitut, vejo a vida com o velho Jack Daniel's




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Toca do JENS


Na hora da partida

 

Um dia vou morrer. Se tiver sorte, daqui a uns 30 anos. Como meu pai.

Ele morreu com 81 anos, em 2004. Um pouco antes, já doente, foi, com a mãe, para a casa da mana Rosa em Floripa. Nada demais. Ela e o Beto, meu cunhado (o irmão que a vida me deu), cresceram sob a égide da velha escola: família, antes de tudo e até o fim. O pai os ajudou no começo da vida a dois – assim como fez comigo. Era o momento de retribuir.

Também fiz a minha parte, de acordo com as minhas possibilidades (um homem é um homem e suas circunstâncias. Ortega y Gasset estava certo).

Um dia a Rosa ligou. Não mandou, não pediu, apenas disse:

- Vem.

Mesmo querendo negar, entendi. Fui.

Na época, eu e a Bete já estávamos separados fisicamente (emocionalmente, jamais; afinal, temos a Mari Timm). Ela ligava todos os dias. Foi a Rosa que falou:

- Diz pra ela vir. Está chegando a hora.

24 horas depois ela chegou e imediatamente integrou a maratona de revezamento no hospital – eu e o Beto à noite, em madrugadas alternadas, ela e a mãe pela manhã, a mana Rosa à tarde.

No dia 24 de julho meu plantão terminou às 9 horas. Estava tentando dormir quando a Rosa veio avisar. O pior, e inevitável, havia acontecido.

No hospital, a Bete me abraçou, chorando:

- Ele me deu tchau.

Ela estava sozinha quando o pai segurou sua mão, encarou-a e disse adeus antes de fechar os olhos definitivamente. 1 hora antes eu havia lhe dado água para beber.

Depois, ajudei a vestir o pai com o terno cinza que ele gostava, para o adeus final. Compreensivo, o Beto foi até em casa e trouxe uma gravata escura. O homem magro não poderia ir embora sem ela. Partiu como sempre viveu: elegante.

Um dia vou morrer. Com sorte, daqui a uns 30 anos.

Quero ir como meu pai, sob o olhar atento e carinhoso de uma mulher.

***

Pra quem não sabe, a Bete é a Beti Timm, que pode ser encontrada aqui (textos e imagens) ou aqui (somente desenhos). Qualquer uma das opções é uma boa escolha. Vale a pena ler (ver) e se encantar.

***

Beijos e abraços amplos, gerais e irrestritos.



Escrito por Jens às 23h06
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Amor, sempre

(O texto a seguir integra a blogagem coletiva sobre adoção proposta pela Geórgia Aegerter e pelo Dácio Jaegger).

***

 

Amor, sempre

 

Aconteceu em 1985, quando me encaminhava para entrar na Idade da Razão (Entrei? Há quem duvide). Trabalhava como assessor de imprensa no Sindicato dos Bancários de POA. Vivia debaixo do mau tempo: o governo havia decretado a intervenção no Banco Sulbrasileiro (banqueiro ladrão não é uma invenção recente). Nós lutávamos para preservar o banco e os empregos (a instituição se salvou – hoje é o Santander -, já os empregos...). Nossa diretriz era simples: se liquidar o pau vai quebrar. Trabalhava 18 horas por dia e estava feliz. Era a volta do cipó de aroeira; a ditadura, sob o comando do general Figueiredo, estava moribunda. Pau na canalha.

***

Numa tarde de setembro, o Bento anunciou:

- Tem uma mulher aí querendo falar contigo.

- Quem é?

- Não sei. Não disse o nome.

- Tudo bem, manda entrar.

Entrou. A bruxa era gorda, feia e suja.

- Onde está o teu pai? – perguntou.

- Em casa – respondi.

Ela insistiu.

- Não, estou falando do teu pai verdadeiro.

- Está em casa – reafirmei irritado.

- Estou falando do teu pai de verdade.  Este aqui – a vaca malvada colocou na frente uma foto em preto e branco de um homem muito parecido comigo. Poderia ser meu irmão. Ou meu pai.

- Que merda é esta?

- Este é o teu pai. Tu é filho dele e da... (disse o nome de uma mulher que eu conhecia, mas que não era a minha mãe). Ele quer te conhecer. Os teus outros irmãos, também.

Foi assim, no ano do meu 30° aniversário, que descobri algo que eu não queria e nem precisava - era filho adotado, um bastardo.

***

Na verdade, eu suspeitava. Ou, inconscientemente, sempre soube, segundo a analista que me acompanhou nos cinco anos subseqüentes. Desde a infância, eu não apenas me orgulhava da solidez da família (pai, mãe e mana – unidos) como também procurava semelhanças com meu pai (uma vez deixei que um amigo fizesse caminhos de rato na minha cabeça, apenas para ficar com uma calvície semelhante a dele). Porém, eu era mais parecido com meu avô materno (não por acaso, descobri depois).

A revelação machucou a alma, arranhou o coração. Não tanto pelo fato em si, mas pela maneira como foi revelado. Aquela mulher transpirava maldade – era quase palpável a intenção de ferir, destruir a nossa família. Não conseguiu.

***

Era noite, eu estava sentado em uma mesa no fundo do bar, quando o pai chegou. Quis saber:

- Muda alguma coisa?

- Pra mim, não.

- Ótimo. Pra mim e pra tua mãe também não. Sou teu pai e ela é tua mãe. Sempre foi assim e vai continuar sendo. Nós te amamos. Tu e a tua irmã.

- Ela...

- Também é adotada. É tua irmã por parte de mãe (quando soube, depois, a mana disse simplesmente: "tô nem aí, não quero nem saber").

O pai pagou a conta.

- Levanta. Não chora. Lava o rosto e vai pra casa. Tua mulher e tua filha estão te esperando.

Antes de ir embora, indagou:

- Queres te encontrar com ele?

- Não. Quero que ele e sua gente sumam da minha vida – dei a foto para ele.

O pai olhou, guardou no bolso e disse:

- Tudo bem. Eu resolvo.

Resolveu. Nunca mais me procuraram.

***

Eu menti quando disse para o pai que tudo continuaria como antes. Na verdade, algo mudou. Os laços familiares ficaram mais apertados, meu amor pelo pai e a mãe tornou-se mais sólido. Percebi que, assim como a mana, havia sido escolhido por eles para ser amado. Fui (sou) um privilegiado. Não poderia ter tido pai e mãe melhores.

Thanks.

***

Beijos. Boa semana pra todos nós.



Escrito por Jens às 08h53
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